quinta-feira, 19 de novembro de 2009

LP e CD Minas - Milton Nascimento


Minas, sempre foi um berço muito pródigo em artistas, de tempos em tempos surgem levas deles que ganham projeção nacional, um dos maiores exemplos são o pessoal do Clube da Esquina, grupo de músicos que apareceram no final dos anos 60 e início dos anos 70, para dar uma renovada na MPB, nada mais justo que o maior expoente deste grupo lançasse um disco, homenageando no seu título o seu Estado, mesmo que a intenção fosse a junção das primeiras letras de seu nome, nada mais amplo para exprimir a grandiosidade deste disco. Muito se fala do "Clube da Esquina" disco seminal e um verdadeiro divisor de águas na sonolenta MPB da época, mas na minha modesta opinião, o disco mais completo de Milton Nascimento é este, se no Clube ele plantou sementes da evolução de sua música, com "Minas" ele bateu a porta da perfeição, numa demonstração da capacidade dele e de sua turma em se aperfeiçoar, se aprimorar, nenhum disco, depois deste, nem os de nosso maestro maior Tom Jobim, nestes últimos trinta e cinco anos, conseguiram uma simbiose tão perfeita entre músicos, composição, arranjo, letras, voz, resultando numa força de interpretação e sensibilidade de deixar atônitos a quem o escuta.

O disco começa de maneira surpreendente em sua faixa título com um coral de crianças e um vocalise de Milton e o violão de Nadim Othemicson, é de quase fazer você chorar de tão bonito. A incerteza do início de carreira nos versos da excelente "Travessia", "Solto a voz nas estradas, já não quero parar, meu caminho é de pedras, como posso sonhar......vou fechar o meu pranto, vou querer me matar", deu lugar a certeza de que a travessia deu certo, nos versos de "Fé cega, faca amolada", "agora não pergunto mais aonde vai a estrada, agora não espero mais aquela madrugada" cantada em duo com o ainda pouco conhecido integrante do Clube da Esquina Beto Guedes e pontuada pelo sax de Nivaldo Ornelas, brilha que nem uma faca amolada.

"Beijo partido" de Toninho Horta, outro integrante do Clube, talvez seja a música onde há o mais perfeito casamento entre a voz de Milton e arranjo, muitos cantores e cantoras tentaram cantar esta música, mas nenhum conseguiu chegar perto desta belíssima interpretação, com seu andamento mais lento, consegue-se sentir todas suas nuances, mais uma vez brilha o sax de Nivaldo Ornelas para complementar a voz de Milton. "Saudades dos aviões da Panair" é uma daquelas músicas com uma força que ao escutá-la, dá uma saudade danada de alguma coisa, ela é tão envolvente, tão agradável que me lembro que ao ouvi-la, sentia uma saudade dos aviões da Panair, mesmo sem nunca ter voado neles, aliás nem sabia de sua existência, ainda dizem que não há magia na música.

Segundo o próprio Milton, o circo sempre lhe fascinou, apesar de uma arte sinônimo do popular, a refinada "Gran Circo" é a homenagem de Milton aos mestres dos picadeiros, é engraçado como uma música bastante complexa, antítese da simplicidade do popular, possa tão bem expressar aquela arte, poucos conseguiram, Chico Buarque e Edu Lobo são um exemplo. A música seguinte "Ponta de areia" é carregada de mineirice, o coral ao fundo nos remete a chegada e partida de um trem, ouvi-la é como passear num daqueles antigos vagões que cruzam matas da ferrovia entre Ouro Preto e Mariana, uma saborosa viagem aos sons da terra do "tutu", mais uma vez o excelente Nivaldo Ornelas arrasa com seu sax.

Com um ótimo time de músicos, quase todos mineiros, que o acompanha desde os tempos do Clube da Esquina, poderia se ter um resultado satisfatório na difícil "Trastevere" onde acordes atonais da orquestração de Wagner Tiso dão beleza a excelente letra de Ronaldo Bastos, logo engatada na vibrante "Idolatrada" bem mais fluída, num verdadeiro contraponto a música anterior. "Leila (Venha ser feliz)" é uma homenagem instrumental, praticamente só com vocais, a uma das mulheres brasileiras mais fascinantes que se tem notícias, Leila Diniz, um verdadeiro furacão que revolucionou o sentido de ser mulher neste País, isso em plena ditadura militar, qualquer uma, hoje em dia, é fichinha na frente dela, a justa homenagem de Milton está a altura da homenageada, uma música vibrante, alegre feliz, pra frente, como Leila.

Uma parceria entre Milton e Caetano Veloso é sinal de qualidade musical, como se vê em "Paula e Bebeto", ninguém consegue falar do amor com tanta inteligência quanto Caetano, talvez só Chico, temos a certeza disto com esta música, os seus versos ampliam o sentido do relacionamento entre duas pessoas, sejam elas quem forem, "qualquer maneira de amor vale amar, qualquer maneira de amor valerá", é isso aí. Qual músico teria coragem de terminar um disco com uma melodia lenta, principalmente após uma, belamente acelerada e totalmente assobiável? só Milton com "Simples" uma simples canção com arranjos de cordas e mais uma vez com uma força interpretativa de arrepiar, pra fechar com chave de ouro.

No cd há dois "bonus track", uma irreconhecível "Norwegian Wood" dos Beatles, com um arranjo mais rebuscado, cantada em duo novamente com Beto Guedes e mais uma vez o sax de Nivaldo Ornelas se destacando e "Caso você queira saber" também em duo com Beto Guedes.

A belíssima capa, assinada por Cafi, Noguchi e Ronaldo Bastos, com um papel laminado diferenciado era um destaque a mais deste excepcional disco, prova da maturidade de um músico que canta, nos encanta e nos emociona até hoje.

Ano de Lançamento: 1975

Ano de aquisição do LP: 1975

Ano de aquisição do CD:07/1998

Nota: Uma das maiores lembranças que tenho deste disco, remete a uma notícia que vi no programa "Sábado Som" com apresentação do Nelson Mota que já comentei aqui no blog, a notícia lida por ele, dizia que o Milton estava totalmente falido antes do lançamento deste disco, por problemas com seu empresário à época, felizmente não seguiu a linha de Simonal. Fiquei bastante sensibilizado com a notícia e fui correndo comprar o LP para assim poder ajudá-lo, estava começando a descobrir a grandeza do Milton. Não sei se fui responsável pela recuperação financeira do Milton, só sei que adquiri um excepcional disco, isto, devo ao Nelson.

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