domingo, 11 de abril de 2010

LP Future - The Seeds



A Geração Flower Power, movimento de contestação surgido nos idos de 1967 e que durou até o início dos anos 70, dizem os céticos que o movimento começou a definhar logo após o festival de Woodstock, há quem discorde. Movimento este que teve seu começo na cidade Holandesa de Amsterdã e ganhou força nos EUA em cidades como São Francisco e San Diego, principalmente quando eclodiu a Guerra do Vietnã, quando os hippies levantaram a bandeira contra esta guerra absurda. O Flower Power foi marcado, entre outras coisas, pelo figurino exótico usado por quem aderiu ao movimento e no campo da música, o destaque eram artistas ou grupos que se destacavam por executar um determinado tipo de música livre e com aspectos “viajantes”, onde os grandes expoentes foram Janis Joplin e Jimi Hendrix que misturavam figurinos exóticos a um rock pesado, cheio de referências psicodélicas. Outros grupos também foram significativos para o movimento, tais como The Byrds e The Mamas and The Papas e em determinada época o cantor de voz rascante Joe Cocker, mas, como em todo movimento muitos outros grupos aderiram e tentavam seguir a linha dos grandes expoentes, alguns com relativo sucesso (Country Joe and the Fish) e outros nem tanto, como é o caso do The Seeds.

Autoproclamado como um grupo da “Flower Generation”, eles até que tentaram um lugar a......... flores, mas o que conseguiram foi a obscuridade, liderados por um tal de Sky Saxon, vocalista e baixista, que até hoje não tenho a menor ideia de quem seja, até que tentam se enquadrar no som feito na época, este disco foi lançado em 1967, mas se perdem nesta tentativa, sem uma identidade própria, procurando seguir os voos dos Byrds, eles não conseguem decolar, o disco não é de todo ruim, salvam-se algumas músicas, como “A Thousand shadows” com um ótimo pianinho e “Flower Lady & Her Assistant” com tons orientais, em contraponto há aberrações como “Two fingers pointing on you” e “Where is the entrance way to play” (com um vocal horrendo) que nunca deveriam ter sido gravadas.

Deveriam ter ficado no compacto, talvez fizessem algum sucesso, pesquisando na internet, vejo que chegaram a gravar mais dois discos, há gosto para tudo. Neste caso o melhor a fazer é buscar o original e ter um “voo” mais tranquilo.
A "semente" plantada pelo The Seeds não germinou "Flores" e o seu "Futuro" foi bastante incerto.

Ano de lançamento: 1967
Ano de aquisição: 1976

sábado, 10 de abril de 2010

LP Laid Back - Gregg Allman


Fundador e líder junto com o irmão Duanne da lendária e até hoje cultuada banda de rock The Allman Brothers Band, em seu voo solo Gregg Allman não desaponta os fãs do grupo, sem se desvirtuar muito do estilo que encanta gerações há várias decadas, aglutinando uma legião de admiradores. Com um ritmo mais lento do que seu grupo de origem e numa levada mais blues, seguindo sua formação inicial, Gregg mostra competência nas suas composições.

Nascidos em Nashville, berço da música country americana e com uma sólida formação musical os irmãos se criaram ouvindo muito jazz, o que explica muita coisa, com Duanne se entupindo de Kenny Burrel, Django Reinhardt, Coltrane etc... e Greeg ouvindo muito Jimmy Smith, tudo isso misturado com muito blues tradicional tipo B.B.King, Muddy Waters, Howlin Wolf e toda aquela gama de sujeitos que faz a gente sofrer como se estivesse num campo de algodão ao ouvi-los. É latente perceber ao escutar este LP, a tendência mais intimista de Gregg, mais voltada para o blues e baladas, sem o auxílio da ferina e ótima guitarra do irmão Duanne, morto num trágico acidente de moto em 1971, ele baseava suas composições no violão e órgão hammond, dando um tratamento mais acústico e mais sereno.

O que se ouve neste disco é uma outra faceta de Gregg, sem o estilo agitado e o rock pesado do seu grupo, surge um baladista de primeira linha, com refinadas melodias. A comparação é inevitável entre sua fase solo e com os Brothers Band, esta sai perdendo, ele rendia mais quando se completava com o irmão, mas não deixa a desejar, segura a peteca e não decepciona os fãs.

Até onde sei, este disco nunca foi lançado no Brasil, nem em LP, nem em CD, o que é de se estranhar devido a enorme legião de fãs do Allman Brothers.

Ano de lançamento: 1973

Ano de aquisição: 1976

quinta-feira, 8 de abril de 2010

LP Sallom, Sinclair and the Mother Bear - Sallom, Sinclair and the Mother Bear


Há certos artistas ou grupos que não alcançaram o sucesso, ou não se destacaram no cenário musical, são praticamente ignorados, as vezes até merecidamente devido a baixa qualidade musical, só que as vezes imerecidamente, pois seu conteúdo musical está acima da média, mas mesmo assim lançam discos mas caem na obscuridade, isto pode ser aplicado ao grupo Salloom, Sinclair and the Mother Bear, liderados pelo guitarrista e vocalista Roger Salloom e pela vocalista Robin Sinclair.

Primeiro de tudo, fora a extraordinária Janis Joplin, nunca vi uma cantora com um vozeirão e uma força interpretativa como esta Robin Sinclair, de voz limpida, cristalina e uma extensão nos agudos de deixar Maria Callas boquiaberta. A comparação com a já citada Janis é inevitável e talvez seja daí que se compreenda o fato de ela não ter despontado, elas são da mesma época, este LP foi lançado em 1968, e a estrela de Janis brilhou demais não dando chance as demais.

O disco desta banda americana de Chicago, berço do blues, é rock bem típico do final dos anos sessenta início dos setenta, pesado com tons psicodélicos, muito órgão ditando o ritmo, acompanhado de uma guitarra pesada. Se o lado 1 é todo dominado pela voz de Robin e um estilo que lembra o Jefferson Airplane, o lado 2 é todo do Roger, num estilo musical bem próximo do ótimo Van Morrison, com toques de blues, como deveria ser de alguém vindo de Chicago, a mistura de blues e rock em "Florida Blues" é bem convincente. A não ser o deslize da música final, um interminável discurso sem efeito de mais de oito minutos, só salvo pela participação vocal da Robin, o LP traz o melhor do que foi produzido à época, um time de músicos que não faria feio em nenhum dos grandes grupos que tanto sucesso fizeram na fase de ouro do rock'n'roll. Apesar da longevidade, continua atualíssimo.

Ano de lançamento: 1968
Ano de aquisição: 1976

Nota: Ganhei este disco, junto a outros, de um grande amigo que infelizmente nos deixou precocemente e hoje deve estar fazendo suas estripulias no andar de cima, Severino Cavalcanti Júnior, mais conhecido como o "Grande Júnior Bala", o adjetivo não tem nada haver com o projétil usado em armas de fogo, a denominação era para expressar a agitação e a loucura, no bom sentido, que ele ditava sua vida, um verdadeiro "aloprado", mas de um coração sem tamanho, de uma bondade sem igual e com um sentido de amizade pouco visto. Para os ligados em política, filho do ex-deputado, o controverso Severino Cavalcanti, mas nossa amizade, inclusive entre as familias, nada tinha haver com política, iniciada na infância e prolongada até a sua morte, tivemos todos, irmãos e irmãs incluso, muitos momentos de farras homéricas, a alegria tomava conta quando nos juntavamos, deixou saudades. Pois bem, Júnior que não era muito ligado em música, ao voltar da uma viagem aos EUA, me deu alguns discos que lá comprou, e por certo não deve ter gostado, este foi um deles. Confesso que na época não dei muita importância, pois não tinha o menor conhecimento de quem se tratava, e deixei o disco encostado este tempo todo. Ouvi-lo agora, foi uma grata surpresa, continuo sem saber de quem se trata, de lá para cá nunca ouvi falar deles, é uma pena, são ótimos músicos.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

LP e CD Aftermath - The Rolling Stones


O que mais impressiona nos discos iniciais dos Rolling Stones, além da sonoridade jovial, era o vigor de suas composições, este foi o primeiro lançamento do grupo em que todas as músicas foram compostas pela dupla Mick Jagger e Keith Richards e convenhamos é de uma unidade impactante, mesmo quando em meio ao som vigoroso, entra baladas espetaculares como “Lady Jane” com seu solo de harpiscord de fazer você levitar em conjunto com a voz suave de Mick, o que a torna uma das mais bonitas baladas da história do rock, que o grupo canta até hoje em seus shows. O estilo inconfundível dos Stones começava a tomar forma, o que pode ser visto mesmo em músicas pouco conhecidas como a ótima “Doncha Bother me”, onde a mistura de blues e rock é perfeita, inclusive com solos de harmônica de Mick, merecia uma melhor atenção.

Este é um álbum com poucos clássicos stoneanos, “Under my thumb” que dispensa comentários e a já citada “Lady Jane”, mas recheado de canções com um alto padrão musical, o que demonstrava a excelência dos rivais dos rapazes de Liverpool, principalmente porque ao inverso dos Fab four, o som deles era mais cru, mais sujo, com pose de rebeldes.

Foi neste disco que os Stones começaram a experimentar novos instrumentos, o piano na introdução de “Flight 505”, outra pouco conhecida, era pouco usual no som deles. Há canções mais conhecidas como “Take it or leave it” e Mother’s Little Helper” e coisas como “Think” que os “muderninhos” de hoje adorariam fazer se tivessem competência para tal.

Mais um disco que vem se somar na prova de que esta realmente é a maior banda de rock de todos os tempos, basta escutar desde seus discos iniciais, como este, até os seus mais recentes.

No lançamento do CD uma surpresa, foi acrescida três novas canções, inclusive uma curiosidade, “Goin’ Home” com seus mais de onze minutos de duração, o que na época era incomum, devido à quase obrigação mercadológica de músicas com a duração máxima de três minutos, nada muito relevante. As outras duas a balançada “Out of time” digna de figurar entre as melhores do disco, e a descartável “I am waiting” que se vê agora, não fez falta no LP.

Ano de lançamento: 1966
Ano de aquisição do LP: 1976
Ano de aquisição do CD: 02/1996

domingo, 4 de abril de 2010

01 ANO DE BLOG


E assim se passaram 365 dias, e o blog está fazendo seu primeiro aniversário, muito poderia ter sido escrito, mas infelizmente o tempo é curto.

Para mim tem sido bastante prazeroso escrever sobre os discos de minha vida, além de redescobrir alguns discos que fazia anos que não os escutava, tem servido para reviver situações que só trazem grandes recordações, afinal a vida também é feita das lembranças do passado e nada mais marcante para estas lembranças do que a música, como se diz "recordar também é viver".

O surpreendente nisto tudo é ver e descobrir que existe uma legião de adoradores do vinil, e eles estão voltando, como constatei hoje, indo a Livraria Cultura aqui de Recife, me surpreendeu a quantidade de relançamentos dos discos de vinil e já há alguns lançamentos fabricados aqui no Brasil, vida longa para ele.

Espero poder compartilhar com vocês este blog por muitos e muitos outros aniversários.

sábado, 3 de abril de 2010

LP Gil & Jorge (Ogum Xangô) - Gilberto Gil e Jorge Ben

Quando dois músicos de excepcional qualidade e no auge de suas criatividades artísticas se encontram em um estúdio e com toda a liberdade possível gravam um disco, só com seus violões e ajuda de um contrabaixista (Luís Wagner) e um percussionista, o ótimo Djalma Correa, só poderia ter um excelente produto final. Gilberto Gil e o ainda na época Jorge Ben (hoje, Jorge Ben Jor) assumem em "Gil & Jorge" a identificação musical existente entre ambos e que ganhou vida sob o título dos orixás Ogum e Xangô. Ninguém pode negar que colocar Gil e Jorge em um estúdio e deixá-los produzir livremente por tempo indeterminado deu um belo fruto. Ogum Xangô é mágico do início ao fim e cada canção literalmente estrangulada pela dupla tem sua particularidade que no conjunto da obra formam este disco belo, espontâneo e logicamente...sensacional.

Vejam o que Gilberto Gil falou na época do lançamento deste disco sobre Jorge Ben. “Eu vejo a música do Jorge como a que mantém elementos mais nítidos da complexidade negra na formação da música brasileira. Modos musicais diferentes vieram para o Brasil através de várias nações africanas. Jorge assume o que veio do norte da África, o muçulmano, como elemento básico do seu trabalho. Ele não gosta de perder a perspectiva primitivista, não deixa de se ligar no gege, ketu, iorubá. Mas ele tem um outro lado que inclui o moderno” .

O disco, apesar de um álbum duplo, tem poucas músicas, mas muito, muito improviso, gravado em apenas uma noite, que deve ter sido uma noite mágica, pelo resultado alcançado, provou o que já se sabia, que os dois são mestres na arte do improviso. O lado 1 do disco 1 tem apenas duas músicas, a suave “Meu Glorioso São Cristovão” de Jorge Ben, em um arranjo bem lento, como se eles estivessem no aquecimento para o que viria depois, só voz e violões, fechando o lado “Nega” de Gilberto Gil, aí já num ritmo um pouco mais acelerado, com a entrada da percussão, a base rítmica começa a possuir as características contagiantes e tradicionais da música popular brasileira, puro ritmo em mais de dez minutos de duração. O lado 2 do disco 1, também com duas músicas, começa com “Jurubeba” de Gil, diz à lenda que o disco todo foi gravado sob os efeitos do licor de jurubeba, dizem que esta era uma jurubeba “especial”, se há alguma verdade, o fato é que esta tal “jurubeba” dá uma ótima inspiração, diz a letra “Jurubeba, Jurubeba, planta nobre do sertão” o que serviu de inspiração para uma levada meio forró, meio baião, esta música é puro prazer, uma jam de mais de onze minutos pra lá de dançante. Fechando o primeiro disco, mais uma de Jorge “Quem mandou (pé na estrada)” numa levada mais de samba rock, bem ao estilo de Jorge, improvisos para balançar o esqueleto.

O disco 2 começa com a melhor música do disco e uma das mais férteis da fase inicial de Jorge Ben e consequentemente da MPB, a swingada “Taj Mahal” com seus mais de quatorze minutos de puro swing, improviso e balanço, é impressionante a força vibrante que esta música exerce, mesmo só com violões e percussão é impossível não se contagiar com seu balanço, é impossível passar incólume a um amor tão eterno. A segunda música deste lado Jorge é “Morre o burro fica o homem”, improviso, swing e balanço. O lado 2 é o lado Gil com as canções “Essa é pra tocar no rádio” e “Filhos de Gandhi” dois exemplos do estilo balançado e alegre de Gil, ritmo africano adaptado ao carnaval baiano, pré Axé Music (quando se tocava música de qualidade), numa levada mais compassada. Encerrando o disco uma parceria entre os dois, “Sarro”, quase uma vinheta, reflete bem o espírito do álbum, alegria pura, como se dizia antigamente para expressar algo muito bom, muito bem feito, um verdadeiro sarro.

Apesar da ótima qualidade sonora do disco, ele não teve uma receptividade muito boa de público na época, inclusive com algumas críticas negativas dos jornalistas especializados, tanto é que o disco passou pouco tempo nas lojas e nunca foi relançado em LP, só mais recentemente, portanto muitos anos depois de seu lançamento é que teve uma edição em CD, mesmo assim com cortes. Pela qualidade, merecia uma melhor atenção, obra prima da MPB, som apropriado para um sábado ou domingo à tarde, durante uma feijoada e tomando muita caipirinha.

Ano de lançamento: 1975
Ano de aquisição: 1976

segunda-feira, 29 de março de 2010

LP Desire - Bob Dylan

Mais uma obra prima do Bardo revolucionário, a fase setentista de Bob Dylan foi uma das mais profícuas e brilhantes de sua carreira, álbuns maravilhosos foram lançados onde ele explicitava toda a sua verve contestatória, apesar, ou por isso mesmo, de ter sido uma época difícil em seu relacionamento pessoal, época muito conturbada de sua vida pessoal, principalmente com o grande amor de sua vida sua ex-esposa Sara, a quem dedicou uma das mais belas canções deste LP, ele cantou o amor desesperado por Sara e as dores de uma separação amorosa, posto a toda prova e a todos.

Desire é um disco deslumbrante, o melhor de Dylan, segundo Alan Rinzler, autor do livro sobre seus discos. Musicalmente, é o mais perfeito, o mais brilhante, com a bela voz de Emmylou Harris colada à de Dylan, que está madura, forte, envolvente, emocionante. E há o violino estranho, meio cigano, de Scarlet Rivera sublinhando as melodias que fazem lembrar cantos judaicos. Inicia com a canção “Hurricane”, a mais violenta de todas as “canções de protesto” que Dylan compôs nos anos 60, sobre Rubin Carter, o Hurricane, um dos mais promissores pesos-médios do boxe americano da época, preso e condenado sob a acusação de um tríplice assassinato. Dylan garante que as testemunhas mentiram, dá o álibi que Hurricane apresentou e que “o júri branco” não considerou, denuncia o racismo do processo, investe contra a própria instituição do júri popular “como pode a vida de um homem desses estar na palma da mão de alguns idiotas?” em seus versos finais, qualquer semelhança com algum País Sul Americano, talvez não seja mera coincidência

“Não pude evitar sentir vergonha de viver em uma terra
Onde a justiça é um jogo
Agora todos os criminosos de terno e gravata
Estão livres pra beber martinis e ver o sol nascer
Enquanto Rubin senta como um Buda em uma cela minúscula
Um homem inocente no inferno
Essa é a historia do Hurricane
Mas não vai acabar até que limpem seu nome
E devolvam o tempo perdido
Colocado em uma cela, mas um dia poderia ter sido
O campeão do mundo”

Apesar de sua longa duração, o arranjo maravilhoso torna sua audição prazerosa, o violino ditando todo o ritmo, Dylan cantando como nunca, um verdadeiro clássico do cancioneiro americano. O álbum segue com “Isis” onde a indefectível harmônica de Dylan impera, para logo depois dividir o vocal com Emmylou Harris num estranho dueto em “Mozambique”, mas é em “On more cup of coffe” que há uma bela integração entre os dois, emoção, lamento, angustia e um certo desespero é transpassado em suas vozes, como se elas saíssem de suas almas, transformando em uma das mais desesperadamente belas das canções de Dylan. Fechando este lado, outro belo dueto com Emmylou em “Oh, Sister”, mais uma vez a integração dos dois é perfeita, pontuada pela harmônica de Dylan e o violino de Scarlet, transforma em mais uma bela canção deste sensacional disco.

“Joey” abre o outro lado, bela crônica sobre outro personagem real, Joey Gallo, descendente de italianos, gângster, mafioso, “rei das ruas, criança brincalhona”. “Romance in Durango” uma espécie de guarania do folk, onde mais uma vez brilha o dueto Dylan e Emmylou, mas é com “Sara” balada belamente triste, que fecha o disco que Dylan canta com o sofrimento da separação indesejada, rompimento de um amor eterno, em “Sara” não há simbolismos, não há metáforas; há a expressão clara, dolorosa de uma paixão. Dylan lembra imagens do passado comum, os filhos brincando com baldinho na praia, ou uma tarde passada em um bar de Portugal diante de uma garrafa de rum, entremeando essas recordações, o refrão: “Sara, Sara”, com elogios, agradecimentos, e, ao fim, uma súplica: “Sara, Sara, doce anjo virgem, doce amor da minha vida. Sara, Sara, jóia radiante, esposa mística, amar você é a única coisa de que não vou me arrepender nunca. Sara, Sara, bela mulher, tão cara ao meu coração, você precisa perdoar minha indignidade. Sara, Sara, ninfa glamorosa, não me abandone nunca, nunca vá embora”. Talvez, nunca um artista tenha se exposto tanto na sua vida pessoal como ele nesta música, provavelmente esta dor da separação tenha tido influência na grandiosidade das canções deste magnífico LP, Dylan estava com o coração aberto, emoção a flor da pele. Dor de amor para os gênios é uma fonte inesgotável de inspiração.

Um disco completo que só provou a grande genialidade deste músico que mesmo com o passar do tempo tem dado provas de que é um músico excepcional, que mereceu, merece e merecerá toda nossa admiração.

Para um disco tão excepcional, o seu lançamento em CD merecia uma atenção especial, projeto gráfico mal cuidado, sem as informações que havia no LP, um desrespeito ao artista e ao ouvinte, se era para lançar assim, era melhor que o não fizesse terrível.

Ano de lançamento: 1976
Ano de aquisição do LP: 1976
Ano de aquisição do CD: 10/1998

domingo, 28 de março de 2010

LP Revolver - The Beatles


Muito se fala que o grande disco dos Beatles é o "Sargent Pepper's...", que seria o divisor de águas não só do grupo como da história do rock, o disco realmente é sensacional, é tudo o que falaram e falam dele até hoje, mas, na minha modesta opinião, o melhor disco dos Fab Four é este Revolver, sem ele o outro não existiria, da música a capa, aqui foi plantada toda a semente do disco posterior, foi neste disco que se verificou a verdadeira evolução deste quarteto fantástico, o disco é irretocável, os arranjos passaram a ser mais elaborados, com a introdução de instrumentos como a Tabla, o efeito da instrumentação com rotação invertida, tudo está aqui, o álbum reflete os novos interesses do grupo: LSD, música indiana, nostalgia pela música da antiga Inglaterra e uma necessidade de escapar das canções de amor convencionais, só que o disco, apesar do grande sucesso, ficou meio esquecido na história do grupo, ofuscado pelo lançamento posterior, este sim, com um grande apelo de marketing e claro, sua excelente música.

O disco inicia com um dos mais belos rock da carreira do grupo "Taxman" de autoria do competentíssimo e ótimo George Harrison, que infelizmente junto com Ringo Starr, viveram sempre na sombra da dupla famosa, a música era uma crítica do guitarrista aos escorchantes impostos cobrados pelo governo da Rainha Elizabeth II, além de detonar e enterrar de vez a era juvenil do grupo, aqueles rapazes alegres tinham amadurecido. "Eleanor Rigby" um verdadeiro clássico, canção de Paul sobre solidão e alienação o seu vocal inicial com o acompanhamento dos violinos é reconhecido logo nos primeiros acordes, a orquestra de violinos segue emoldurando o belo arranjo, esta tem a cara de Paul McCartney. "I'm only sleeping" uma bem mais John Lennon, com os acordes da orquestra com rotação invertida dá o tom inovador a música, o seu final com um som oriental era o preparo para a introdução de "Love you to" outra do Harrison que inicia com uma Tabla e uma arranjo pra lá de oriental que conduz a canção, que fala de reflexão, de mudanças, a semente do futuro do som do grupo estava lançada. "Here, There and Everywhere" uma balada mais do que perfeita composta por Paul, com arranjos complexos e harmonias distintas entre si. "Yellow Submarine" é o momento descontração do disco, brincadeira que resultou futuramente em um disco e um filme em desenho animado, é cantada por Ringo, acompanhada no vocal pelos outros. Fechando o lado A, "She said she said" outra com a cara do John, diz a lenda que feita em mais uma das "viagens" dele, a letra levanta mais ainda a suspeita de que Paul estaria morto, "Eu sei o que é estar morto" diz.

O lado B, começa com "Good day sunshine" flerte da dupla com o Jazz, o solo de piano é algo. "And your bird can sing" é a mais experimental do disco, vocais sobrepostos e a guitarra de Harrison tocada ao contrário. Mais uma bela balada com a cara de Paul "For no one", arranjo rebuscado e belíssimo, com inserções de metais que abrilhantam a música. "Dr. Robert" resquício da era jovem do grupo, inspirada no som dos anos cinquenta. "I want to tell you" e "Got to get you into my life" são dois exemplos da qualidade sonora do grupo, a primeira mais lenta a segunda mais agitada, toda chupada dos metais da soul music, os branquelos ingleses mostrando que também sabiam fazer música pra dançar, metais arrasadores. Para fechar o disco, a mais psicodélica de todas, "Tomorrow never knows", experimentalismo puro, inspirada no dodecafonismo, vocal dissonante de John, apesar do título, era a antecipação para o que viria posteriormente.

Um disco excepcional de um grupo excepcional, atualíssimo até hoje, o verdadeiro divisor de águas da história moderna da música mundial, sem ele a música não seria a mesma.

Ano de lançamento: 1966
Ano de aquisição: 1976

Curiosidade: Após o lançamento deste disco, surgiu uma das maiores lendas acerca do grupo, a morte de Paul. Tudo começou em 1966. Logo após o lançamento do álbum Revolver, os Beatles pararam de excursionar durante um breve período em razão da complexidade de transposição das músicas do estúdio para o ao vivo. Isso, aliado a um acidente de moto sofrido por Paul, despertou a criatividade do público, que começou a buscar uma explicação para o “sumiço” temporário do baixista da banda. Esse acidente lhe rendeu um dente quebrado e uma cicatriz no lábio, que carrega até hoje. Segundo diz a lenda, ele teria furado um cruzamento e colidido contra um carro no dia 9 de novembro de 1966. Daí veio a história de um concurso de sósias para substituir o músico em suas funções, e, posteriormente, os produtores começaram a soltar pistas sobre a morte do músico. O escolhido? Um sujeito chamado Billy Shears.

O disco foi lançado antes do suposto acontecimento, mas mesmo assim entrou para o hall de pistas sobre a morte de Paul. Trata-se da primeira capa de um disco dos Beatles desenhada; isso teria sido pensado para que o público não reconhecesse o sósia. Também há uma mão aberta em cima de sua cabeça, sinal de benção aos mortos em diversas culturas. Esse símbolo seria repetido em inúmeras oportunidades, reforçando cada vez mais a lenda, como por exemplo na capa de Yellow Submarine, na capa de Abbey Road, outras suspeitas e em muitas outras histórias.
A verdade é que se isto tudo não é lenda, foram buscar um sósia bem parecido e um músico do caralho, tão bom ou melhor que o original, a prova é o que ouvimos até hoje.

sábado, 27 de março de 2010

LP e CD Station to Station - David Bowie


O som do trem no início da bela "Station to station" é o sinal de que o Camaleão está iniciando mais uma mudança no seu rumo musical e ele nos leva nessa nova viagem para beber na fonte dos primórdios do rythm blues, como já demonstrou no ótimo disco anterior "Young Americans", já comentado neste blog, só que desta vez Bowie reprocessa tudo e aponta para o futuro, reciclando e inovando o ritmo, o som da guitarra pode tranparecer que a viagem passa por local incerto e inóspito, para logo depois desaguar num pancadão sonoro, numa profusão de sons dançáveis. A música com dez minutos de duração, tempo suficiente para David Bowie desfilar um palavratório sobre totalitarismo, cocaína, esgotamento pessoal e flertar com o futuro de livros como "1984" (George Orwell) e "Admirável Mundo Novo" (Aldous Huxley).

Foi também em Station que mostrou um personagem controvertido, o "Thin White Duke", que causou revolta ao desembarcar em Londres e fazer a saudação nazista para os fãs. Era uma figura fria, sem emoção, calculista e sedutora, visualmente o personagem era uma extensão de Thomas Jerome Newton, seu personagem no filme de ficção científica "O Homem que caiu na Terra" dirigido por Nicholas Roeg, lançado em 1975, pouco visto aqui no Brasil, uma interessante história de um extraterrestre que vinha a Terra atrás de um líquido primordial para a sobrevivência de seus pares do seu Planeta e que já estava se esgotando por lá, a água, Bowie está muito bem neste papel. A capa deste disco é tirada de uma cena do filme.

Segue-se outra bem dançável e a mais bem sucedida comercialmente do disco, a funkeada "Golden Years", o baixão determinando o ritmo, irresistível numa pista de dança, versatilidade pura. "Word on a Wing" que fecha o lado 1, é uma das mais belas canções feitas por ele, uma balada pop bem apropriada para sua ótima voz, que ressalta versos como "Senhor, eu me ajoelho e ofereço minhas palavras ao vento/E estou tentando duramente me ajustar ao seu projeto", sobressai o piano de Roy Bittan oriundo da banda de Bruce Sprigsteen.

Já "TVC15", que abre o lado 2, fala de uma televisão holográfica que engole uma suposta namorada, mais uma vez a soul music predomina, nesta balada dançante, como não deixam negar o corinho e a levada do baixo e guitarra. "Stay" com sua batida fortemente influenciada da disco music, parecia ser uma forte candidata a fazer sucesso nas pistas de dança, mais uma vez Bowie inova em um ritmo da época, hoje, vê-se que foi pouco compreendido pela galera que "soltava suas asas", a disco music ficou, a sua música continuou. Encerrando o trabalho, uma versão magnífica de "Wild is The Wind", uma arrasadora balada, onde mostra toda sua versatilidade como cantor.

Outro grande disco deste inigualável artista, logo após este ele entraria em sua fase alemã, mas aí é uma outra história, que será comentada mais adiante.





No CD, além das músicas do LP, remasterizadas e evidentemente numa qualidade sonora melhor, principalmente em relação a ótima voz de Bowie, a foto da capa do LP foi colorizada (foto acima) e incluída duas versões ao vivo do "Station to station Tour", gravadas em 23/3/1976 no Nassau Coliseum em Long Island, USA. Na versão ao vivo de "Word on a Wing", nada de novo em relação a versão original, a não ser o destaque para a grande voz de Bowie. A outra versão do disco foi para "Stay", esta um pouco diferente da original, menos disco e mais rock, com a guitarra do excelente Carlos Alomar em destaque, mas o baixão continua lá.

Uma curiosidade: Bowie disse certa vez que se tornou artista ao ver um vídeo e depois uma foto de Little Richard com seus saxofonistas e se saiu com uma dessa, "Eu sabia que não podia ser Little Richard, mas pelo menos eu poderia ser um dos seus saxofonistas, pensei. Assim pedi a meu pai para emprestar dinheiro para comprar um sax. Foi assim que eu comecei."
Ainda bem que Little usava saxofone no seu grupo.


Ano de lançamento: 1976
Ano de aquisição do LP: 04/1976
Ano de aquisição do CD: 03/1992

segunda-feira, 22 de março de 2010

LP e CD Bob Dylan's Greatest Hits - Bob Dylan



Com o lançamento de uma coletânea, fica-se a expectativa de que o melhor do artista seja disponibilizado, por isso que praticamente no mundo inteiro a denominação “greatest” é usada a exaustão, como se esta palavra determinasse a qualidade de cada artista, mas pode não ser bem assim, aliás, na maioria das vezes o tal “greatest” se resume no máximo a duas boas músicas, tornando-se a audição do restante do disco um martírio. Só que há artistas como Bob Dylan, que provam que a tal palavra “greatest” pode sim, representar o que de melhor um artista pode produzir, claro que ele não está só neste rol, mas é aí que verificamos que há realmente artistas diferenciados e Bob Dylan é um deles, este “Greatest Hits Vol. I” é a demonstração mais palpável disto. Dificilmente uma coletânea teve tantos clássicos como esta, e o que impressiona é a unidade existente no disco, uma amostra de que a produção inicial deste bardo revolucionário é mesmo de uma qualidade sem igual na história musical universal. O prazer que a audição de um disco como este lhe provoca é indescritível, mesmo que as letras tenham perdido um pouco de sua força, como no caso da extraordinária e sempre atual “Blowin´in the Wind” afinal o ímpeto juvenil revolucionário de quem escuta, foi substituído pela preocupação diária da vida.

Fica-se a dúvida se é fácil ou difícil escolher o repertório para uma coletânea de um artista como Bob Dylan, tal a profusão de músicas de qualidade produzida por ele, o certo é que esta coletânea expressa o que de melhor ele produziu, tornando-a fantástica, afinal o que dizer de um disco que contém músicas como a já citada “Blowin´ in the Wind”, “Lay Lady Lay”, “Like a Rolling Stone”, “Mr. Tambourine Man”, “Subterranean Homesick Blues” e “Just Like a Woman”, a não ser que é genial.

No lançamento do CD nenhuma novidade, a não ser a melhoria na qualidade tecnológica, projeto gráfico terrível, merecia um melhor cuidado.

Ano de lançamento: 1975
Ano de aquisição do LP: 1976
Ano de aquisição do CD: 11/96

domingo, 21 de março de 2010

LP Help! - The Beatles


Se algum Extraterrestre (afinal, qualquer terráqueo conheceria o grupo) aportasse na Terra e desavisadamente pegasse um disco com este título, poderia logo imaginar que se tratava de algum grupo com linha melódica depressiva, com arranjos sombrios, soturnos e pesados, com letras que buscassem uma saída desesperada para a solução de seus problemas psiquícos existenciais e conseguissem dar um sentido a sua vida. Se este Alienígena fosse bem resolvido, ao escutar o disco, logo perceberia, se tratar de um conjunto das mais belas composições de alto astral e anti depressivas, eles poderiam estar gritando por ajuda por tudo, menos para curar depressão.

Trilha sonora do deliciosamente bobinho filme homônimo, onde o que menos importava era o roteiro, este servia apenas como gancho para o desfile das ótimas canções do disco, cada aparição deles cantando era motivo para delírio ensandecido das fãs. É neste disco e na música título que eles utilizam pela primeira vez instrumentos indianos como a sítara que mais adiante resultaria no polêmico ingresso na seita indiana. No resto são clássicos, clássicos e mais clássicos do começo ao fim, falar de qualquer disco dos Beatles, é como se diz "chover no molhado" são só elogios, muito já se falou deles, é impressionante como eles conseguiram uma conjunção perfeita no pop, músicas de uma qualidade que grudam na sua mente. Todo o lado A, são de canções do filme, difícil não citar uma delas como clássico eterno dos Beatles, "Help", "You've got to hide your love away", "You're going to lose that girl" e "Ticket to ride" são as melhores, encantam até hoje.

O lado B, com canções que não fizeram parte do filme, tem em "Yesterday" o carro chefe do disco, a música mais gravada por outros artistas da história, mais de 3000 gravações catalogadas, é realmente um primor musical, mesmo com tantas gravações, mesmo com repetições ad infinitum, que poderiam fazer dela uma daquelas músicas que ninguèm conseguiria mais ouvir, ao contrário, cada nova audição, difícil não cantar, não assobiar, não se emocionar, pérola musical que não envelhece, não se esgota. Com músicas menos conhecidas, percebe-se a qualidade sonora dos Fab Four, com seu estilo próprio e sua marca registrada, eles desfilam o mais puro pop, passeando pelo country "Act Naturally" até o rock "Dizzy Miss Lizzy" que é outro destaque, com seu andamento mais acelerado e pesado, nitidamente mais com a "cara" de John Lennon, o mais rocker dos quatro, a guitarra elétrica conduz tudo, muita gente nos tempos de hoje gostaria de fazer um rock assim.

Impossível não gostar dos Beatles, quem diz que não gosta, ou não gosta de música ou está apenas tirando onda, um dia vai gostar.

Ano de lançamento: 1965
Ano de aquisição: 1976

domingo, 7 de março de 2010

LP Revolver - Walter Franco


Com um trabalho diferenciado e fora dos padrões da mesmice que imperava na época e sempre focado na inovação, Walter Franco foi estigmatizado como “maldito”, estigma este que infelizmente o acompanha até os dias de hoje, o que dificultou a continuidade do seu trabalho artístico tendo como consequência lançamentos esporádicos, nos privando da excelente música produzida por este poeta concretista do trocadilho. A vaia recebida na final do Festival Internacional da Canção da Rede Globo em 1972, quando defendeu a desconcertante música “Cabeça” também deve ter contribuído para colocá-lo à margem do sucesso, mesmo assim Walter nunca abriu mão da inovação e desenvolvimento de seu estilo de compor e cantar. Juntamente com artistas como Jards Macalé, Tom Zé (pré David Byrne) e mais adiante Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé que sempre calcaram os seus trabalhos em composições mais elaboradas, buscando a inovação nos seus arranjos, o certo é que todos eles sempre tiveram dificuldades em gravar, uns mais outros menos, viveram meio que à margem da produção fonográfica brasileira, pior para os amantes da boa música, quando lançavam um disco, era motivo de comemoração para aqueles que necessitavam de um sopro de inovação musical.

O lançamento de “Revolver” do Walter Franco pode ser incluído no rol dos discos fundamentais para a evolução da música popular brasileira, neste disco, Walter tenta consolidar o seu lado mais “pop”, se é possível rotulá-lo assim, sem abrir mão de sua qualidade sonora, a verdade é que ele mescla seus acordes minimalistas com um rock anos setenta em “Feito gente” para logo após em “Eternamente” mostrar sua assinatura musical, a colagem de vocais e sussurros superpostos, em “Mamãe d’água” uma versão nebulosa utilizando a mesma métrica lingüística de “Bat Macumba” do Gilberto Gil, elegantemente sombria. A visão dele para o samba é mostrada e percebida já desde o trocadilho do título em “Partir do Alto”, só que a linha evolutiva do samba é modificada e pontuada por teclados numa linha de acordes repetitivos, samba que muita gente gostaria de ter feito, as duas últimas músicas do lado A, são as que mais representam o som feito por Walter Franco, “1 Pensamento” quase uma vinheta, com ele solo no violão e “Toque Frágil” onde impera a colagem de vozes, sons superpostos em rotações diferenciadas e gente falando, lembrando a “Cabeça”, num festival com certeza tomaria outra vaia, no disco é um primor de música.

O Lado B começa com a balançada e vamos dizer assim meio “pop” (afinal, maldito nunca faz nada popular) “Nothing” que se fosse escrita por uns tais Lennon e McCartney, teria feito sucesso no mundo inteiro, sem exageros, mas, como foi feita por um “maldito” ficou na obscuridade. O impressionante é que ele sempre consegue dar tonalidade própria em suas canções, com arranjos inovadores e diferenciados entre si, mas tendo como linha principal a sua maneira econômica de cantar, como se solvesse cada palavra cantada, “Arte e Mania” e “Bumbo do mundo” são exemplos neste disco. “Cena maravilhosa” parceria com seu pai Cid Franco, também é cantada destacando a emoção em cada sílaba, fechando o disco a enigmática “Revolver”, mais uma vez o poema econômico, beirando o minimalismo prevalece, o que faz destacar o belo arranjo, mais uma vez diferenciado, mais uma vez inovador, Walter canta com uma força poucas vezes vista, uma interpretação para mostrar ao mundo que quem estava ali não era nenhum maldito.

O lançamento deste disco na época, com sua arte gráfica bem cuidada, inclusive com o título escrito em braile (mostrando estar à frente do seu tempo não só na música) foi uma tentativa da gravadora para enterrar de vez o estigma de “maldito” de Walter Franco, mas diante da mesmice e falta de criatividade que imperava na MPB, ele não foi muito bem aceito pelo público o que ajudou mais ainda a consolidar este terrível estigma, Walter se recolheu artisticamente, lançando discos esporádicos, pior para nós.

Ano de lançamento: 1975
Ano de aquisição: 1976

Nota: Sempre nutri uma admiração pela música de Walter Franco, me lembro vagamente da vaia que ele levou no festival de 1972 com a música “Cabeça”, mas mesmo garoto de doze anos, ela nunca me saiu (desculpem o trocadilho) da cabeça, com o passar dos anos via que aquele músico que não saia da minha cabeça, era o caminho da inovação na MPB, pena que os seus discos se tornaram cada vez mais esparsos, era muito decepcionante a cada ano saber que o que poderia ser o sopro criativo da música, não lançaria nada de novo, realmente foi uma pena.

LP The Rolling Stones Nº 2 - The Rolling Stones


Mais um da fase inicial do grupo, quando ainda contava com o "maluco beleza" do Brian Jones, é visível a jovialidade e vigor das músicas desta fase, o Brian teve uma importância fundamental para plantar a raíz do som feito pelo grupo, R&B crioulo no sangue dos branquelos, "Everybody needs somebody to love" que abre o disco é um exemplo, o batidão de guitarra e baixo é irresistível, poucos conseguiram tocar tão bem o ritmo crioulo quanto os Rolling Stones, Mick Jagger como fundo vocal para salientar a parte instrumental deu o molho necessário a este blues.

O disco segue destilando muito rock calcado no blues e R&B, a harmônica de Mick em "Down Home Girl" junto a guitarra de Brian é pura emoção. "You can't catch me" tem a assinatura de um dos grandes ídolos do grupo, Chuck Berry, particularmente para Keith Richard fonte inspiradora para seus grandes riffs, o negão realmente era demais, puro balanço, em seguida um dos clássicos do grupo "Time is on my side" que inicia arrebentando com um solo de Keith, a bateria de Charlie segura tudo e determina o ritmo. O lado A finaliza com duas composições da dupla Jagger-Richard, onde fica notório a influência do rythmy and blue americano no som do grupo, ainda longe dos grandes clássicos da dupla, era evidente a qualidade musical de ambos em compor.

O lado B, inicia com mais um rock básico a la anos 50, "Down the road apiece" balanço puro, guitarra e piano acelerados num duelo elétrico, já "Under the boardwalk" é totalmente inspirada nas canções dos grupos vocais americanos do final dos anos 50, o vocal no refrão diz tudo, apesar da inspiração, o molho dado por Charlie e Brian fazem a diferença. "I Can't be satisfied" é de mais um ídolo do grupo Muddy Waters, grande músico de blues americano, reverenciado pelos grandes grupos de rock, de uma de suas músicas foi retirado o nome que batizou o grupo. Mais uma que virou clássico "Pain in my heart" curta e bela como deve ser, recheada de ótimos solos de guitarra. Mais uma inspirada e vinda direto dos anos 50, "Off the Hook" que é também da dupla Jagger-Richard, poderia ter sido composta por qualquer um dos grupos vocais americanos, batida irresistível, Charlie comandando tudo, para finalizar, "Suzie-Q" um rock vigoroso e acelerado, mostrando a pujança dos Rolling Stones.

Rock'n'roll básico como demonstração da qualidade e potencial do som elaborado pelo grupo, que seria confirmado em futuros lançamentos e transformaria eles na maior banda de rock'n'roll do mundo.

Ano de Lançamento:1965
Ano de aquisição: 1976

segunda-feira, 1 de março de 2010

LP Nashville Skyline - Bob Dylan



Segundo disco lançado após o grave acidente de motocicleta, até hoje nunca explicado, que virou um mistério de sua biografia, que quase vitimou o astro, deixando-o de molho por uns dois anos. Muitos acreditaram, na época, que sua carreira estivesse acabada, tendo em vista o mistério que envolvia o acidente, Bob Dylan virou um recluso nestes dois anos de inatividade artística. Após o molho, um novo Dylan surgiu, mostrando que o acidente não tinha deixado sequelas, ele estava compondo como nunca, os fãs mais ardorosos estranharam quando ele lançou o excelente "John Wesley Harding" numa versão acústica e mais contido, ele envereda para a Country Music, mostrando que sua genialidade estava afeita a qualquer tipo de música, principalmente quando aquela era a sua praia.

Com o espírito de seu público já preparado, Dylan lança este LP que virou um marco na história da música americana e da Country Music em particular, de onde saiu um dos grandes sucessos do compositor, a hoje clássica "Lay Lady Lay". Neste disco, Dylan mudou de rumos artísticos, afastando-se do movimento folk de protesto e voltando-se para canções mais pessoais, instrospectivas, ligadas a uma visão muito particular de mundo. As questões sócio-políticas de seu tempo: racismo, guerra fria, guerra do Vietnã, injustiça social, cedem espaço para a temática das desilusões amorosas, amores perdidos, vagabundos errantes, liberdade pessoal, viagens oníricas e surrealistas, embaladas pela influencia da poesia.

Se Dylan havia surpreendido por lançar um disco mais "conservador" em uma época em que todas as bandas apostavam alto na psicodelia e em drogas, aumentaria ainda mais o espanto ao lançar este "Nashville Skyline", Dylan estava realmente cantando, com uma voz mais empostada, em alguns momentos até de maneira irreconhecível, quem ouviu pela primeira vez "Lay Lady Lay", grande sucesso do álbum custou a crer que era Bob Dylan. O álbum abre com uma das mais belas parcerias da história: Dylan e a lenda viva da música americana Johnny Cash cantam uma canção que Bob havia gravado em seu segundo álbum, "The Freewheelin' Bob Dylan", "Girl from the North Country", quando dois gênios se encontram, só pode resultar em uma pepita sonora, poderia ser o grande sucesso do disco se não fosse ofuscada por "Lay Lady Lay".

"Nashville Skyline Rag" um country western instrumental, com banjo, guitarra havaiana e a indefectível harmônica de Dylan brilhando na música. Com sua voz anasalada, mais empostada e mais grave, ele vai desfilando canções que nos fazem esquecer que a Country music não pode estar atrelada ao chatérrimo do Willie Nelson e que há sim coisas boas e que pode ser um estilo musical agradável de se ouvir, canções curtas que mostram a genialidade do artista. O lado B começa com a excepcional "Lay Lady Lay", a música havia sido composta para a trilha do filme "Midnight Cowboy", grande sucesso na época e um dos clássicos do cinema mundial, mas perdeu o prazo de inclusão por atraso nas gravações. Os produtores acabaram usando "Everybody’s Talking", de Fred Neil. Pior pra eles, o disco segue com alguns rocks com uma levada country que podem ser considerados como os precursores do country rock, os destaques são "Tell Me That It Isn’t True" e "Tonight I’ll Be Staying Here With You" que fecha o disco, o início da letra já diz tudo, “Jogue minha passagem pela janela / Jogue minha maleta por lá também / Jogue meus problemas pela porta / Eu não preciso mais deles / Porque essa noite vou ficar com você!" Dylan afugentando suas neuroses, numa balada bem leve com um certo ar alegre.

Com este disco e suas belas canções, ficou a certeza que o talento extraordinário de Bob Dylan não foi afetado pelo misterioso acidente, provado por tantos e tantos outros discos excepcionais lançados até hoje.

Ano de lançamento: 1969
Ano de aquisição: 1976

Nota: Este foi mais um disco importado que comprei na "Modern Sound", junto com a leva anterior comentada aqui no blog, lembro-me que queria um disco do Dylan que não estava mais em catálogo aqui no Brasil, na dúvida de muitos optei por este que pouco conhecia, talvez mais pela capa e pela música "Lay Lady Lay", o disco estava lacrado e só o escutei quando cheguei ao Recife, confesso que estranhei a sonoridade do Bardo revolucionário, deixei-o encostado por muitos anos, para redescobri-lo depois com muito prazer, só gênios proporcionam isso.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

LP Rock'n'Roll Animal - Lou Reed



Primeira parte da gravação do lendário show de Lou Reed e banda no Howard Stein´s Academy of music em Nova York em 21 de dezembro de 1973. Este LP foi lançado anteriormente ao “Lou Reed Live”, com a segunda parte deste show, já comentado aqui no Blog, que só foi lançado devido ao estrondoso sucesso deste Rock’n’Roll Animal.

O disco é um petardo sonoro que sobrevive atual nos dias de hoje, desde a sua impactante capa e contracapa até o conteúdo musical, passando pela qualidade sonora de uma gravação ao vivo, tudo remete ao clássico que se tornou este LP. Lou Reed e Banda captados em uma fase excepcional desfilam só clássicos, numa espécie de “os melhores momentos” em um show que ficou marcado como um dos melhores na sua já longa e vasta carreira.

Começando com uma introdução instrumental só com a banda, capitaneados pelos excelentes guitarristas Dick Wagner e Steve Hunter, músicos de qualidade demonstrando um perfeito entrosamento, peso total, preparando o público para a triunfal entrada de Lou Reed entoando os versos iniciais de “Sweet Jane” onde brilha a guitarra de Hunter, um clássico revisado com improvisações que o tornaram melhor ainda. A próxima música é o clássicão “Heroin” também revisado, o que já era bom, ficou melhor ainda nesta versão ao vivo, com uns minutos a mais que serviram para que a banda improvisasse em cima dos pesados acordes originais, com direito a uma breve pausa para o solo do órgão de Ray Colcord para respirar, tomar fôlego e voltar aos versos vomitados com uma fúria inigualável por Lou, a guitarra ensandecida de Hunter dá o tom desta versão sem precedentes deste clássico.

O lado 2 começa com outro clássico “White Light/White Heat” e mais uma vez as guitarras são o destaque dando o peso ideal para a voz raivosa de Lou Reed, o público delira. A próxima “Lady Day” menos pesada, serve para amenizar e acalmar os ânimos, mesmo neste baladaço, Lou destila a mesma raiva anterior, sua voz parece sair dos seus poros, emoção pura. Para fechar o disco, não o show claro, uma versão estendida de mais um clássico de Lou, “Rock’n’Roll”, mais uma vez a guitarra entra demolidora segurando o peso da música, baixo, bateria e órgão emolduram a voz furiosa de Lou, no setor improviso o baixista Prakash John e as guitarras de Wagner e Hunter dão um show a parte, no final a plateia ensandecida pede bis.

Como se pode perceber um disco/show recheado de clássicos só poderia se tornar num clássico eterno do Rock’n’Roll Animal.

Ano de lançamento: 1974
Ano de aquisição: 1976

Nota; Para os colecionadores de discos, nada é mais sensacional e apaixonante do que entrar em uma verdadeira loja de discos, este LP, comprei na “Modern Sound” uma loja no Rio de Janeiro, talvez uma das melhores que já conheci, pelo menos na época dos LPs. Aqui no Brasil, só ela e a “Baratos Afins” em São Paulo, faziam o deleite de qualquer maníaco do vinil. Como ia dizendo, comprei este disco quando fui de férias para o Rio em 1976, estas férias ficaram marcadas por entre outras coisas, pelo fato de ter conhecido esta loja, garoto de dezesseis anos e acostumado às lojinhas do Recife, não acreditava no que via, eram três pavimentos repletos de discos, dos mais variados tipos e para todos os gostos musicais, eram tantas novas informações, novas descobertas que me deixaram atordoado, afinal, diante de tantas opções o que escolher para comprar com a grana curta? Para mim isto talvez fosse o que menos importasse, talvez melhor do que comprar é poder ver e manusear os discos. Desde aquela época e por diversos anos a Modern Sound passou a ser uma parada obrigatória nas minhas idas ao Rio de Janeiro, era o meu ponto turístico favorito e no tempo que morei lá, ia quase que semanalmente, até descobrir novas lojas e sebos, mas, me emocionei e me encantei muitas vezes nesta loja, grandes recordações.

sábado, 30 de janeiro de 2010

LP My God! / Nothing is Easy - Jethro Tull





A pirataria, como vemos hoje, é crime, e como tal deve ser tratada, a comercialização desenfreada de produtos principalmente ligados à arte de maneira geral e a música em particular, resultou num processo de desaceleração das vendas que empurrou de ladeira abaixo a indústria fonográfica, pelo menos como a conhecíamos, claro que não foi o único responsável por esta derrocada, mas ajudou muito.

Houve um tempo em que a pirataria, diferentemente da de hoje, era sinônimo de raridade, os grandes ídolos e campeões de vendas tinham seus shows gravados, as vezes de maneira tosca, para serem disponibilizados ao público em versões piratas, pelo simples fato de ter aquele show imortalizado em disco, como a indústria fonográfica, leia-se as grandes gravadoras, não tinham o interesse e evidentemente não podiam lançar discos de todos os shows de seu cast, alguns abnegados faziam isto por ela, no que apareceu os incontáveis "bootgles" que povoaram e fizeram a delícia dos amantes principalmente do rock.

O lançamento destes discos, apesar de comercializados de maneira proibida e "escondida" no mercado, eram divulgados meio que abertamente pelas revistas especializadas, motivo pelo qual transformava-os em objeto de disputa pelos fãs que quase chegavam aos tapas para poder adquiri-los, afinal, a sua tiragem era pequena, o que os transformavam em raridades instantâneas, os casos clássicos eram os discos do Led Zepellin, Bob Dylan e Rolling Stones, eles eram os mais pirateados e quanto mais tentavam combater, mais discos eram lançados, o deleite da galera era geral.

Este álbum duplo "My God / Nothing is Easy" do Jethro Tull, lançado pela gravadora(?) Trade Mark of Quality, na época uma das mais famosas desta área, traz momentos do grupo "ao vivo" e em estúdio, o disco além da capa minimalista (sem nenhuma foto), não continha nenhuma informação, o ouvinte que se virasse para saber quais músicas faziam parte do disco, como nunca tive muito saco para procurar e também o acesso àquela época as revistas especializadas era díficil e devido a raridade que estes discos se tornavam rapidamente, fiquei todo este tempo sem informações sobre ele, outra característica destes lançamentos era a pigmentação colorida dos LPs, como vemos na foto, era um verdadeiro barato.

Graças aos "desígnios" da Internet (santa tecnologia) consegui, depois destes anos todos, identificar que o lado 1 foi gravado, de maneira tosca, qualidade muito ruim, de um show em Long Beach, Califórnia em 19 de Abril de 1970, se a qualidade do som não era muito boa, o resultado era compensado pela excelente fase em que Ian Anderson & cia se encontravam, ele, como um deus endiabrado com sua flauta comandava uma massa sonora facilmente indentificável, o som do Jethro Tull é muito peculiar, com apenas três faixas que tomavam o lado inteiro do disco, destacava-se "My God" uma ótima música extraída do "Aqualung", até hoje, o melhor disco do Tull, numa versão extendida com muitos solos da flauta nervosa de Ian, a guitarra de Martin Barre, simplesmente arrasadora durante o show é o destaque de "Sossity: you're a woman" do disco Benefit, completa o lado 1 "Reasons for waiting".

O lado 2, já com uma qualidade sonora bem melhor, é composto de cinco sobras de estúdio, nunca antes lançadas em LP, algumas apenas em lados B dos compactos, os destaques são "Love story" e "Christmans song", nas outras três faixas, "17"; "Sweet Dream" e "Whitch's Promisse", escuta-se o grupo em experimentos musicais capitaneados pela flauta de Ian e a guitarra de Martin. O lado 3 também retirado de um show, desta vez no Anaheim Convention Centre, Califórnia com data de 19 de junho de 1971, tem uma qualidade técnica um pouco melhor que o anterior, mas nota-se que a gravação deve ter sido feita "as escondidas" e com aparelhos não muito confiáveis, só que musicalmente esta fase do Tull foi muito boa e o grupo improvisava muito em cima de suas músicas, transformando sua audição num prazer, mesmo com a deficiência técnica, provavelmente este deve ter sido um show para um público reduzido, são apenas duas músicas, começa com "Wind-up" só no violão e flauta de maneira bem amena e tranquila, com Ian conversando com a plateia, tudo começa a esquentar quando tocam "Locomoive Breath" onde Ian desembesta com sua flauta numa jam pra lá de enlouquecida, um solo magnífico, mais de sete minutos, digno de Hermeto Pascoal, a pequena plateia delira.

O lado 4 também com sobras de estúdio, onde o destaque é uma versão bem diferente da excelente "Aqualung". Pode-se perceber um grupo bem afiado e entrosado nas versões de "Nothing is easy" e "To cry you a song".

Raridade total, pois temos o Jethro Tull em sua melhor forma, um disco que passa ao largo da discografia oficial do grupo.

Ano de lançamento: 1975

Ano de aquisição: 1976

Nota: Nunca compactuei com a pirataria, sempre preferi o original, isto já desde pequeno, mas confesso que quando ganhei este disco, fiquei extasiado. Quem leu o post anterior, o do "Ziggy Stardust" tomou conhecimento de uma tia, Nélia, do Rio de Janeiro que me conseguiu o disco, pois foi esta mesma tia quem me deu este do Tull, não que ela entendesse de rock, não entendia e nem entende até hoje, mas ao comprar o do Ziggy, por um pedido meu, resolveu me presentear com um outro disco e seguiu a dica do vendedor, que indicou este, acho que ela deve ter comprado o disco por ser diferente dos demais, devido a sua pigmentação. Ao recebê-lo, simplesmente não acreditei, pelo inusitado da situação, não imaginaria nunca que uma tia me daria um disco pirata e do Jethro Tull, que nem era muito famoso pelas bandas de cá, fiquei numa felicidade só, previa que tinha nas mão uma raridade. Belo presente, tia.

sábado, 23 de janeiro de 2010

LP The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars - David Bowie


O ano era 1972, o "sonho" tinha acabado, o rock estava sem rumo, os caminhos traçados por todos acabavam num mesmo lugar, a mesmice predominava nas artes, tudo inócuo, inóspito, a solução teria que vir dos céus, aqui na terra a estagnação era geral. Eis que surgindo quase do nada, numa rua deserta e sombria de Londres (como tem que ser a aparição dos extraterrenos, vide o Superhomem e o Exterminador do futuro), com seu visual andrógino e cores desbotadas, vindo do espaço empunhando uma guitarra, aquele que daria um novo sentido, um novo rumo ao rock, o capitão Ziggy Stardust. Com sua voz potente e melodias arrasadoras, ele mostrou um novo caminho a ser seguido, o rock depois dele nunca mais seria o mesmo, voltou a ser criativo e belo como antes.

Alter ego do extraordinário David Bowie, Ziggy Stardust foi um personagem criado pelo Camaleão do rock, criatura que ficou maior que o criador, assumindo identidade própria e catapultando Bowie para o superestrelato mundial, razões para isso não faltaram, este disco que de uma maneira conceitual mostra a passagem deste personagem pela Terra, é um primor de qualidade musical, ótimas música, todas elas quando escutadas separadamente já mostram qualidades individuais que teriam vida própria, quando escutadas num conjunto, beiram a perfeição, tornando o disco um dos maiores clássicos da história do pop rock mundial em todos os tempos, difícil é não encontrá-lo nas listas dos melhores de todos os tempos, seja de que maneira temática for, como recentemente encabeçou a lista dos cem melhores discos escolhidos pela turma GLS (mostrando que eles tem um ótimo gosto).

O disco começa com a desesperada "Five Years", Ziggy se assusta com o que vê na sua chegada a Terra, rock vigoroso com Bowie cantando como nunca, gritos de desespero, afinal só faltam cinco anos. O tom fica mais ameno em "Soul Love", o destaque é o sax de Bowie, na medida certa, em "Moonage daydream" quem se destaca é o excelente guitarrista Mick Ronson da banda "Spiders from Mars" solo ou duelando com os teclados ele prova que a solução tinha que vir do espaço, sensacional. "Starman" (que o brasileiro conhece bem através da terível e desvirtuada versão, "Astronauta de Mármore" pra lá de pop do grupo "Nenhum de Nós", nada a ver com a versão original), demonstra bem a apresentação de Ziggy ao novo planeta, melodia facilmente assobiável para os rumos a serem seguidos, fechando o lado A, "It ain't easy", com um vocal poderoso em contraponto com a voz dissonante de Bowie.

Com "Lady Stardust", Ziggy faz seu primeiro show, uma balada iniciada com um sutil piano para desembocar numa massa sonora emoldurando sua bela voz, os ares desesperados continuam só que mais amenos. "Star" um rockabilly digno dos grandes artistas onde o piano é o destaque e "Hang on to yourself" um apressado rock, que serviu de base para muita coisa feita nos anos 80, são a preparação para o grande finale do disco que começa com a ótima "Ziggy Stardust" com um riff de guitarra e vocalise confirmando os versos iniciais "Ziggy played guitar", ficou na história, a batida irresistível da bateria segurando tudo, os riff da guitarra e a voz de Bowie, formam um conjunto pouco visto, a guitarra como instrumento dos deuses, clássico incontestável, segue-se com a acelerada "Sufragette City" piano e guitarra ditando o ritmo, a mais dançante de todas, puro entusiasmo. O ritmo é quebrado com a introdução lenta só na base de violão de "Rock'n'Roll Suicide" que num crescendo chega ao ápice sonoro mostrando o mesmo desespero do início do disco, é o fim para Ziggy e seus seguidores, uma das mais belas, comoventes e desesperadas música da história do rock mundial. O trio de músicas finais deste LP é a tradução completa da grandiosidade do talento deste artista.

Um disco completo, da capa extraordinária, lembrada e reconhecida até hoje como símbolo das artes gráficas, a contra capa mostrando Ziggy dentro de uma cabine telefônica em referência ao Superhomem, formam um conjunto clássico. Um dos maiores clássicos já vistos no rock que mudou o seu rumo, ressurgindo-o das cinzas, mostrando ao mundo que o rock poderia ser revigorado. Insuperável até os dias de hoje, referência incontestável para os novos artistas, aqueles que não beberam desta fonte, se perderam no meio do caminho.

Ano de lançamento:1972
Ano de aquisição: 1976

Nota: É impressionante o fascínio que a música tem sobre as pessoas, como determinados momentos de suas vidas são marcados por esta ou aquela música, são lembranças que lhe seguem a vida inteira. Isto se aplica no meu caso de uma maneira ampliada, alguns discos marcaram a minha vida, quem acompanha este blog já deve ter percebido, "Killer" do Alice Cooper é um exemplo, "Close to the Edge" do Yes também, outro é este "Ziggy Stardust", garoto com dezesseis anos, eu já era fã do Bowie e tinha ouvido muito falar deste LP, mas aqui em Recife, na época, era uma raridade, não se encontrava em loja nenhuma, para consegui-lo o jeito foi apelar para uma tia minha, Nélia, que morava no Rio de Janeiro (compra pela internet, ainda nem era sonho), só que lá também estava difícil de encontrar, ela teve que apelar para a importação, pois sabia que eu iria passar as férias por lá, a cobrança pelo disco iria ser grande. Me lembro nitidamente da satisfação quando ela me entregou o LP em sua casa no bairro da Tijuca, ter aquele disco nas mãos e ainda por cima importado, os olhos brilhavam, não consegui fazer outra coisa a não ser abrir cuidadosamente o disco para escutá-lo, muitas e muitas vezes, lá mesmo na casa dela, ela e o marido saíam para trabalhar e eu ficava escutando as aventuras do Ziggy, fiz muitas outras coisas nestas férias no Rio, mas a que mais marcou foi o deleite de ouvir Ziggy num disco importado.

Será que a turma do MP3, consegue ter esta mesma satisfação? o que eles contarão daqui há alguns anos? Globalização é fogo.

Curiosidade: Segue abaixo, uma foto mais ou menos recente do local de "aparição" de Ziggy, imortalizado na capa do LP, notem que depois que Ziggy se foi, tudo ficou asséptico demais, meio sem graça, sem brilho, mas assim como a rua dos Beatles, virou um local eterno.


domingo, 17 de janeiro de 2010

LP Courage - Milton Nascimento

Milton Nascimento é mesmo um artista diferenciado, qual artista, brasileiro ou não, praticamente desconhecido, seria chamado para gravar nos EUA (meca financeira) logo após o lançamento de seu primeiro disco? isto há mais de quarenta anos atrás, o resultado é este belo disco, praticamente desconhecido na discografia do Bituca.

O seu debut americano foi pelas mão do excelente Eumir Deodato, que já desfrutava de um certo prestígio na comunidade musical americana e convidou Milton para gravar um disco americano, inclusive com arranjos do próprio Eumir, com o auxilio luxuoso de excelentes músicos que despontavam à época e que consolidaram suas carreiras ao longo do tempo, tais como Airto Moreira (percussão), Herbie Hancock (piano) e Hubert Laws (flauta).

O LP inicia com uma das melhores músicas já compostas por Milton até hoje e que o lançou nacionalmente "Travessia", cantada em inglês e português, esta dualidade linguística em nada prejudica sua qualidade, composição digna de gênio. "Vera Cruz" e "Três Pontas" tem suas qualidades instrumentais ressaltadas pelos arranjos de Deodato, um jazz fusion com molho brasileiro, balanço puro, o piano no final de Três Pontas é a marca do Hancock. "Outubro" com um arranjo mais clássico sobressaindo-se as cordas, não deixa de ter também o balanço típico do início dos anos 70, apesar de mais sóbria. "Courage" outra cantada em inglês e português, tem um estilo mais lento, o destaque é a percussão de Airto em contraponto as cordas.

O lado 2 do LP começa com "Rio Vermelho" com uma vocalise de Milton num balanço suingado, bem ao estilo sambalanço, mais uma vez a percussão de Airto predomina. "Gira Girou" composição de Milton e Márcio Borges tem uma intervenção de Herbie Hancock no piano simplesmente maravilhosa, puro jazz da melhor qualidade. "Morro Velho" é uma daquelas músicas que ficam na história da MPB por serem completas, letra, música, arranjo inigualáveis, a história dos amigos de infância indiferentes a diferença social entre ambos, e que na fase adulta esta diferença é desabrochada, tem uma força social muito maior do que muita tese de mestrado de sociólogo de plantão, coisa de gênio. "Catavento" é a única música que não tem acompanhamento de orquestra e por isso mesmo é a melhor do disco na parte instrumental, a flauta de Hubert Laws dialogando com o piano de Hancock, mostram a sutileza do lindo arranjo do Eumir. Para fechar o disco, mais uma suingada do Milton, "Canção do Sal" num arranjo mais acelerado que o habitual.

Este disco é um primor instrumental, com excelentes arranjos e músicos que ajudam a destacar a cristalina voz de Milton. Isto é uma prova de que grandes artistas já começam e continuam com grandes discos.

Ano de lançamento: 1969
Ano de aquisição: 1976

LP Before the Flood - Bob Dylan & The Band


Os "live album" podem tanto manchar uma discografia respeitável quanto assumir status de clássico, é o que se pode dizer deste LP de Bob Dylan, que na época chamou seu antigo grupo, The Band, para que juntos fizessem uma turnê, relembrando antigos sucessos. Hoje, além de verdadeiro clássico, este álbum duplo é um deleite para os ouvidos e é constantemente lembrado nas listas de melhores de todos os tempos no formato "ao vivo".

Para que este formato dê certo é necessário que haja uma simbiose entre plateia e artista, quando isto acontece tudo flui com mais facilidade, transformando o show numa verdadeira celebração artística. Depois de trabalharem por um bom tempo juntos, Bob Dylan e The Band já trilhavam separadamente caminhos próprios quando resolveram se juntar novamente para esta série de shows, eles estão em grande forma, ótimos instrumentistas que seguram a barra para a voz meio gutural de Dylan, é notório o entrosamento entre os músicos, como se eles nunca tivessem deixado de tocar juntos, com novas versões para antigos sucessos, sem modificá-los muito, vê-se uma levada mais funk para um dos clássicos de Dylan "Lay Lady, Lay", outro clássico contemplado com uma versão modificada com um andamento um pouco mais rápido, foi "Knockin' on heaven's door" símbolo da música de protesto nos anos 60.

Mesclando sucessos antigos com músicas menos conhecidas, inclusive dando oportunidade para que a The Band apresentasse composições próprias, o show/disco vai num crescendo até o seu final, quando é apresentada os maiores sucessos de Dylan, numa performance digna de grandes artistas, estão lá "All along the watchtower", "Highway 61 revisited" e as mais conhecidas "Like a rolling stone" e "Blowin' in the wind", transformando o seu final numa verdadeira apoteose.

Shows com uma mística diferenciada se transformam em shows (disco) históricos

Ano de lançamento: 1974

Ano de aquisição: 1976

DVD O CORPO - José Antônio Garcia






"Esse Marlon Brando é safado demais", reza Xavier no Cine Marabá, no centro de São Paulo, durante uma sessão de "O Último Tango em Paris". Depois de uma "noite do último tango" em casa, é Bia quem dispara: "você faz numa única noite o que o Marlon leva o filme inteiro para fazer"...

Que prazer rever "O Corpo", produção de 1991, ano em que ainda se voava de VASP pelos céus desse Brasil, como na cena final em que Carmem (Marieta Severo) e Bia (Cláudia Jimenez) se sentam nas poltronas de um avião, com nada menos do que um Daniel Filho posicionado entre elas e "recebendo o espírito" de um Xavier (Antônio Fagundes), que já virou rosas no quintal da sua própria casa...

Dirigido por José Antônio Garcia e baseado numa estória de Clarice Lispector, o filme é recheado de fantásticos momentos da mais pura e sofisticada tragicomédia urbana, daquela que só os grandes artistas - autores e intérpretes - podem nos oferecer, sem resvalar no vulgar, no óbvio ou no sem graça. E o filme é justamente o contrário de tudo isso.

Trata-se da estória de Xavier, um dono de farmácia mulherengo e boa pinta que vive, e muito bem, com as suas duas esposas na mesma casa. Depois da missa de domingo, por exemplo, que ele frequenta assiduamente com as duas companheiras, para escândalo geral, ele é alertado pelo delegado em vésperas de aposentadoria (Sérgio Mamberti) sobre as inconvêniencias do seu comportamento público, e dispara sem pestajenar: "Eu faço às claras o que os outros fazem escondido".

Tudo vai muito bem até o dia em que Xavier, desafiando não os padrões morais da sociedade, mas os padrões estabelecidos nos limites do seu lar e das suas companheiras, resolve arrumar uma amante, na verdade a prostituta Monique (Carla Camurati), que atende sempre com hora marcada e lhe proporciona momentos de extremo prazer quando verbaliza, no auge das suas atividades proibidas, o famoso "Goza, seu Filho da Puta"

Estória e interpretações de primeiríssima linha são completadas com nada mais nada menos do que a música de Paulo Barnabé e a coreografia de Leni Dale. O que dizer de um filme que tem participações especiais de Guilherme de Almeida Prado, Walter Hugo Khouri, Carlos Reichenbach e Arrigo Barnabé?

O filme é repleto de cenas antológicas, como por exemplo aquela do café da manhã tomado na cama à três, em que Carmem saboreia uma coxa de frango assado mergulhada numa lata de condensado. Ou quando Carmem, estimulada por Bia ("você merecia ser escritora... você já foi datilógrafa, para escritora é um pulo...") se investe de filósofa e propõe que "a saudade é um pouco como a fome, só passa quando se come a presença". Ou, ainda, quando Bia e Carmem confessam a noite de amor juntas ("o tempo custa a passar e a gente fica sem fazer nada...") e fazem o Xavier exprimir o seu mais puro sentimento de surpresa e admiração, seguido da curiosidade que não se realiza. "Felizmente ainda temos o Cauby", dispara uma Carmem vestida de preto sentada no sofá, enquanto o outro embala os corações da dupla ao som de "Blue Gardenia" pela TV preto-e-branco...

Apesar de não considerar que o filme seja datado, é fato que as cenas da viagem do trio ao Rio de Janeiro definitivamente deixaram uma marca ao incluir imagens dos letreiros dos locais mais badalados da época, como é o caso do Scala, do Oba-Oba e até mesmo da boate Help. Esse era exatamente o Rio de Janeiro do final dos anos 80 e início dos 90.

Sensual, colorido, passional, divertido, urbano e surpreendente, o filme faz parte inquestionável do grupo dos grandes clássicos do cinema nacional. Para se lamentar, apenas a qualidade da transcrição do filme para o DVD. Mereceria uma telecinagem de muito melhor qualidade.

Postado por Marcus Vinicius Midena Ramos