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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

OS DEZ MELHORES DE 1975 - NACIONAL


No post anterior foi a lista dos dez melhores internacionais, esta é dos dez melhores LPs Nacionais do ano de 1975, não necessariamente lançados no ano e sim os adquiridos no ano, vamos lá, sempre com controvérsias.

1º - Minas - Milton Nascimento - Simbiose perfeita entre músicos, composição, arranjo, letras e voz, evolução de um movimento batendo quase a perfeição.

2º - Fruto Proibido - Rita Lee - Base para tudo que foi feito no rock nacional até hoje.

3º - Matogrosso - Ney Matogrosso - Virada musical de um cantor, experimentações musicais como prenúncio de uma evolução.

4º - Krig-ha, Bandolo - Raul Seixas - Inovador, polêmico, irreverente, quebrando barreiras da sistemática métrica musical, plantando raízes indissolúveis no rock nacional.

5º - Molhado de suor - Alceu Valença - Precursor da mistura de ritmos do rock nordestino, inovador da sonoridade de raízes.

6º - Novo Aeon - Raul Seixas - Disco fundamental para a continuidade do rock nacional, irreverência e inovação como princípios básicos.

7º - 1990 - Projeto Salva Terra - Erasmo Carlos - Sem a sombra do Rei, Erasmo mostra que sabe fazer rock dos bons.

8º - Milagre dos Peixes ao vivo - Milton Nascimento - Celebração do Clube da Esquina em duas noites mágicas com instrumentação e voz numa integração absolutamente bela.

9º - Snegs - Som Nosso de Cada Dia - Rock progressivo nacional rivalizando em qualidade com o feito lá fora.

10º - A Arte de - Caetano Veloso - As melhores músicas do poeta baiano, as melhores músicas do cancioneiro nacional.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

LP e CD Novo Aeon - Raul Seixas


Ainda sob a égide da Sociedade Alternativa, Raul Seixas lança seu terceiro álbum solo, já com projeção nacional, conseguida pela música "Ouro de Tolo" e pelo disco anterior "Gita", com isso a espera e cobrança com o novo lançamento aumentaram e Raulzito não decepcionou. Na época a MPB passava por uma fase ruim, poucos lançamentos expressivos, salvavam-se Ney Matogrosso e Milton Nascimento, o pop rock nacional ainda não havia decolado, engatinhava tropeçando nas suas próprias fraldas, coube a Rita Lee e o próprio Raul com suas músicas darem alento para que saíssem do fraldário, foram fundamentais para isso.

Continuando sua parceria com o hoje místico e escritor platinado Paulo Coelho, que nos brindou com grandes pérolas do nosso cancioneiro, inventivas que oxigenaram a letrada letargia por que passavam os compositores nacionais, principalmente no pop rock, é impensável acreditar que ele tenha ficado assustadoramente conservador, o dinheiro fala mais alto.

O disco começa com a ótima "Tente outra vez" que virou nos dias de hoje "hino de tudo", só que na época não foi assim, passou meio que despercebida, provando que Raul estava a frente de seu tempo, a letra é um primor, merece o sucesso que tem hoje. "O Diabo é o pai do rock" já diria ele em "Rock do Diabo", alguém duvida? um rock meio anos sessenta, em plena ditadura e conservadorismo falar abertamente sobre o diabo, haja coragem. Raul era daqueles que batiam e assopravam, é o que se vê logo após na açucarada balada "A Maçã" uma bela e rasgada canção de amor, haja ecletismo, e novamente a letra se sobressai "Amor só dura em liberdade, o ciúme é só vaidade" este é o Raul romântico, só que logo depois ele se considera egoísta em "Eu sou egoísta" com direito a referência a Caetano Veloso. E tome mistura de baião e embolada em "Caminhos" quando isto era impensável.

É em "Tu és o MDC da minha vida" que a dupla mostra toda a verve e visão da sociedade da época, espécie de continuação de "Ouro de Tolo" só que num ritmo mais balançado, talvez o prenúcio do tecno brega, eles descrevem de maneira perspicaz acontecimentos da vida urbana citando personagens polêmicos como o o ultra conservador e radical apresentador de TV Flávio Cavalcanti, mostrando mais uma vez que estava se lixando com qualquer tipo de patrulhamento ideológico, afinal para os descolados da época era uma heresia falar deste personagem, quem conseguiria rimar bode com Pink Floyd? só Raul mesmo e tudo isto numa levada brega, demais.

Outra música que causou estranhesa foi "É fim do mês" com sua diversidade de estilos musicais, mais uma vez Raul mostra sua qualidade como letrista e cronista do dia a dia, suas letras merecem um estudo sociológico. Fechando o disco a música que lhe dá título começando com sons de uma toada, para logo cair num rock em mais um manifesto da sociedade alternativa.

Célebre por suas frases feitas e polêmicas, cito apenas duas que exprimem muito bem a faceta de Raul e mostram porque ele foi taxado de Maluco Beleza.


"A arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal"

"O sonho do careta é a realidade do maluco"

Alguém aí, pode contradizê-lo?


Ano de lançamento: 1975
Ano de aquisição do LP: 1975
Ano de aquisição do CD: 04/2000

domingo, 18 de outubro de 2009

LP Ney Matogrosso - Ney Matogrosso


Integrante de maior destaque dos Secos e Molhados, grupo de estrondoso sucesso no início dos anos 70, Ney Matogrosso saiu em carreira solo depois de desentendimentos com os outros integrantes do grupo e a briga foi feia, com acusações de ambos os lados, principalmente com o João Ricardo que se achava o dono do grupo.

Com o estardalhaço feito, e uma saída nunca muito bem explicada, cresceu a expectativa diante do primeiro disco solo do cantor de falsete e figura andrógina, afinal nas trocas de farpas cada qual que quisesse tomar para si como sendo o responsável pela qualidade sonora dos S&M.

Rodeado de tantas expectativas e sendo vendido como uma novidade absoluta, o disco foi considerado na época como um tanto exagerado, a figura de Ney com sua vestimenta a la o homem de Neanderthal e a propalada utilização de um papel para a capa que exalava um cheiro de mato, não ajudou muito no sucesso do disco, não foi muito bem compreendido pelo grande público.

Incompreensão a parte, a verdade é que o disco musicalmente é excepcional, uma verdadeira rutura que Ney teve a coragem de propor ao seu público, como se quisesse mostrar que o cantor dos S&M estava definitivamente enterrado, cheio de experimentações musicais, acordes dissonantes e um tanto dificeis de se assimilar em uma primeira audição, repleto de arranjos elaboradíssimos e rebuscados era a prova de que ali não estava apenas o cantor de voz "diferente", Ney se integrava a um time de músicos de uma qualidade acima da média comandados pelo trumpetista Márcio Montarroyos.

O disco inicia com "Homem de Neanderthal" que dá o tom do que viria pela frente, com seus sons guturais e da natureza, mostra que a intenção era de fazer um disco ligado a terra, o mato, como o cheiro que realmente exalava de sua capa, pelo menos por alguns dias. A sua versão para "O Corsário" de João Bosco e Aldir Blanc, até hoje é insuperável, segue com "Açucar Candy" de Sueli Costa e Tite Lemos, com uma letra de uma sutileza que não deixava mais dúvidas quanto a opção sexual do cantor, só não entendeu quem não quiz, a turma da censura não deve ter entendido.

Sempre com arranjos rebuscados, o disco segue com músicas de alto calibre para fechar com chave de ouro com sua três últimas canções, "Barco Negro" de Piratini e Caco Velho uma espécie de guarania muito bem interpretada por Ney e com um solo de violão maravilhoso, "Cubanacan" é uma salsa dançante que se inicia com um ótimo solo de trumpete e fechando tudo "América do Sul" que se tornou o sucesso do disco, executada até hoje.

Acompanhava o LP um compacto com duas músicas do extraordinário Astor Piazzolla, gravados na Itália, onde morava, com acompanhamento do próprio, um luxo que poucos artistas conseguiram ter, principalmente quando se sabe do nível de exigência do compositor de "Adios Noninos". O compacto tinha de um lado "As Ilhas" de Carneiro e Piazzolla que simplesmente arrasa com seu bandoneon dando uma beleza diferente a voz de Ney, do outro lado "1964" de Borges e Piazzola, um tango belo e soturno como só Piazzolla sabia fazer.

Este disco pode não ter tido o sucesso que se esperava na época, mas mostrou a capacidade e excelência sonora do cantor Ney Matogrosso, provado posteriormente pelo enorme sucesso alcançado até hoje.

Ano de lançamento: 1975

Ano de aquisição: 1975

sábado, 11 de abril de 2009

LP Secos e Molhados - Secos e Molhados


Eles chegaram arrasando, causando polêmica por sua atitude ousada e performática, quebrando regras, subvertendo ordens e isso em plena ditadura militar, qual grupo teria coragem de lançar um primeiro disco com uma capa tão inusitada quanto provocativa, cabeças em bandejas servidas numa mesa para serem devoradas, um visual devastador, com muita maquiagem e roupas exóticas, associado a tudo isso uma música diferenciada da feita à época, Rock?; Jazz?; MPB? difícil de rotular a música dos Secos & Molhados tinha de tudo um pouco. Este disco foi um estrondoso sucesso, mais de um milhão de cópias vendidas, baseado em composições elaboradíssimas de um dos líderes da banda o João Ricardo que tiveram na voz em falsete de Ney Matogrosso sua mais perfeita tradução.

O disco começa com "Sangue Latino" do João Ricardo e Paulinho Mendonça, meio blue, meio folk e um violão arrasador com uma letra que mostrava a que veio o João, a segunda música "O Vira" novamente de João Ricardo desta vez em parceria com Luli, foi o grande sucesso dos S&M, quem não se lembra da apresentação performática de Ney com seus trejeitos avassaladores, um arraso, a música alegre e balançada ajudava e muito, toques da música portuguesa davam o diferencial. O sino a la Pink Floyd de "O Patrão nosso de cada dia" de João Ricardo que junto com a flauta compassava e acalmava os ânimos para logo depois voltar ao ritmo balançado. "Assim assado" abria com um toque de merengue para em seguida dar vez a uma guitarra distorcida pontuada por uma flauta, referência ao Guarda Belo, seria uma homenagem aos desenhos animados?, a música termina com a flauta e o toque de merengue. Outra grande música e grande sucesso até hoje foi "Rosa de Hiroshima" composição de Gerson Conrad sobre letra de Vinicius de Moraes (maravilhoso), a interpretação de Ney acompanhado de violão e flauta é emocionante, enfim, um disco para entrar na história da música popular brasileira, infelizmente ou felizmente os S&M com esta formação só duraram mais um disco que já não fez tanto sucesso quanto este, desavenças entre os integrantes do grupo determinaram seu fim, um dos pilares era Ney Matogrosso, não obstante o João Ricardo ser um compositor competentíssimo. Os S&M deixaram dois legados, o primeiro foi o retorno do rock nacional de qualidade ao megasucesso, o segundo foi o extraordinário e talentoso artista NEY MATOGROSSO.


Ano de lançamento: 1973

Ano de aquisição: 1973



Nota: Quem acompanha este blog sabe que comecei ouvindo e admirando Alice Cooper, só que para um garoto de classe média morador de uma cidade como Recife, isto há mais de trinta anos atrás, Alice Cooper era um artista muito distante, inatingível em quase todos os sentidos, eis que surge aqui no Brasil um grupo que se não tinha a mesma proposta musical, tinha uma estética visual parecida com Alice Cooper e eram tão performáticos quanto ele, portanto, muito mais palpáveis, mais próximos, mais fáceis de serem alcançados, tanto é que me lembro muito bem e é uma lembrança muito forte, quando fui aos treze anos assistir junto com meu pai, ao show dos S&M no Geraldão, ginásio de esportes daqui de Recife, foi a primeira vez que tive contato com uma multidão inimaginável, não sai da lembrança o esforço que fiz para não ser pisoteado e esmagado ao adentrar o setor de cadeiras do ginásio, a multidão estava enlouquecida, parecia que aquele seria o último show da terra. Me lembro bem da galera extasiada quando Ney e companhia entraram no palco, parecia até que o Brasil tinha ganho uma copa do mundo, só vi algo parecido muito tempo depois num show do Legião Urbana no Jockey Club do Rio de Janeiro, uma catarse total. Naquele show os S&M mostraram a que vieram e pude perceber que Ney Matogrosso era um artista e tanto, ganhou a platéia logo no início, aliás, como ele sempre fez e vem fazendo no decorrer da sua carreira.

Outra curiosidade, comprei este disco na minha cidade natal, Campina Grande/PB, o que creio eu, desmistifica um pouco o mito que sertanejo é preconceituoso e conservador, ou então, mostra que o sucesso deles foi realmente grande.