domingo, 21 de fevereiro de 2010

LP Rock'n'Roll Animal - Lou Reed



Primeira parte da gravação do lendário show de Lou Reed e banda no Howard Stein´s Academy of music em Nova York em 21 de dezembro de 1973. Este LP foi lançado anteriormente ao “Lou Reed Live”, com a segunda parte deste show, já comentado aqui no Blog, que só foi lançado devido ao estrondoso sucesso deste Rock’n’Roll Animal.

O disco é um petardo sonoro que sobrevive atual nos dias de hoje, desde a sua impactante capa e contracapa até o conteúdo musical, passando pela qualidade sonora de uma gravação ao vivo, tudo remete ao clássico que se tornou este LP. Lou Reed e Banda captados em uma fase excepcional desfilam só clássicos, numa espécie de “os melhores momentos” em um show que ficou marcado como um dos melhores na sua já longa e vasta carreira.

Começando com uma introdução instrumental só com a banda, capitaneados pelos excelentes guitarristas Dick Wagner e Steve Hunter, músicos de qualidade demonstrando um perfeito entrosamento, peso total, preparando o público para a triunfal entrada de Lou Reed entoando os versos iniciais de “Sweet Jane” onde brilha a guitarra de Hunter, um clássico revisado com improvisações que o tornaram melhor ainda. A próxima música é o clássicão “Heroin” também revisado, o que já era bom, ficou melhor ainda nesta versão ao vivo, com uns minutos a mais que serviram para que a banda improvisasse em cima dos pesados acordes originais, com direito a uma breve pausa para o solo do órgão de Ray Colcord para respirar, tomar fôlego e voltar aos versos vomitados com uma fúria inigualável por Lou, a guitarra ensandecida de Hunter dá o tom desta versão sem precedentes deste clássico.

O lado 2 começa com outro clássico “White Light/White Heat” e mais uma vez as guitarras são o destaque dando o peso ideal para a voz raivosa de Lou Reed, o público delira. A próxima “Lady Day” menos pesada, serve para amenizar e acalmar os ânimos, mesmo neste baladaço, Lou destila a mesma raiva anterior, sua voz parece sair dos seus poros, emoção pura. Para fechar o disco, não o show claro, uma versão estendida de mais um clássico de Lou, “Rock’n’Roll”, mais uma vez a guitarra entra demolidora segurando o peso da música, baixo, bateria e órgão emolduram a voz furiosa de Lou, no setor improviso o baixista Prakash John e as guitarras de Wagner e Hunter dão um show a parte, no final a plateia ensandecida pede bis.

Como se pode perceber um disco/show recheado de clássicos só poderia se tornar num clássico eterno do Rock’n’Roll Animal.

Ano de lançamento: 1974
Ano de aquisição: 1976

Nota; Para os colecionadores de discos, nada é mais sensacional e apaixonante do que entrar em uma verdadeira loja de discos, este LP, comprei na “Modern Sound” uma loja no Rio de Janeiro, talvez uma das melhores que já conheci, pelo menos na época dos LPs. Aqui no Brasil, só ela e a “Baratos Afins” em São Paulo, faziam o deleite de qualquer maníaco do vinil. Como ia dizendo, comprei este disco quando fui de férias para o Rio em 1976, estas férias ficaram marcadas por entre outras coisas, pelo fato de ter conhecido esta loja, garoto de dezesseis anos e acostumado às lojinhas do Recife, não acreditava no que via, eram três pavimentos repletos de discos, dos mais variados tipos e para todos os gostos musicais, eram tantas novas informações, novas descobertas que me deixaram atordoado, afinal, diante de tantas opções o que escolher para comprar com a grana curta? Para mim isto talvez fosse o que menos importasse, talvez melhor do que comprar é poder ver e manusear os discos. Desde aquela época e por diversos anos a Modern Sound passou a ser uma parada obrigatória nas minhas idas ao Rio de Janeiro, era o meu ponto turístico favorito e no tempo que morei lá, ia quase que semanalmente, até descobrir novas lojas e sebos, mas, me emocionei e me encantei muitas vezes nesta loja, grandes recordações.

sábado, 30 de janeiro de 2010

LP My God! / Nothing is Easy - Jethro Tull





A pirataria, como vemos hoje, é crime, e como tal deve ser tratada, a comercialização desenfreada de produtos principalmente ligados à arte de maneira geral e a música em particular, resultou num processo de desaceleração das vendas que empurrou de ladeira abaixo a indústria fonográfica, pelo menos como a conhecíamos, claro que não foi o único responsável por esta derrocada, mas ajudou muito.

Houve um tempo em que a pirataria, diferentemente da de hoje, era sinônimo de raridade, os grandes ídolos e campeões de vendas tinham seus shows gravados, as vezes de maneira tosca, para serem disponibilizados ao público em versões piratas, pelo simples fato de ter aquele show imortalizado em disco, como a indústria fonográfica, leia-se as grandes gravadoras, não tinham o interesse e evidentemente não podiam lançar discos de todos os shows de seu cast, alguns abnegados faziam isto por ela, no que apareceu os incontáveis "bootgles" que povoaram e fizeram a delícia dos amantes principalmente do rock.

O lançamento destes discos, apesar de comercializados de maneira proibida e "escondida" no mercado, eram divulgados meio que abertamente pelas revistas especializadas, motivo pelo qual transformava-os em objeto de disputa pelos fãs que quase chegavam aos tapas para poder adquiri-los, afinal, a sua tiragem era pequena, o que os transformavam em raridades instantâneas, os casos clássicos eram os discos do Led Zepellin, Bob Dylan e Rolling Stones, eles eram os mais pirateados e quanto mais tentavam combater, mais discos eram lançados, o deleite da galera era geral.

Este álbum duplo "My God / Nothing is Easy" do Jethro Tull, lançado pela gravadora(?) Trade Mark of Quality, na época uma das mais famosas desta área, traz momentos do grupo "ao vivo" e em estúdio, o disco além da capa minimalista (sem nenhuma foto), não continha nenhuma informação, o ouvinte que se virasse para saber quais músicas faziam parte do disco, como nunca tive muito saco para procurar e também o acesso àquela época as revistas especializadas era díficil e devido a raridade que estes discos se tornavam rapidamente, fiquei todo este tempo sem informações sobre ele, outra característica destes lançamentos era a pigmentação colorida dos LPs, como vemos na foto, era um verdadeiro barato.

Graças aos "desígnios" da Internet (santa tecnologia) consegui, depois destes anos todos, identificar que o lado 1 foi gravado, de maneira tosca, qualidade muito ruim, de um show em Long Beach, Califórnia em 19 de Abril de 1970, se a qualidade do som não era muito boa, o resultado era compensado pela excelente fase em que Ian Anderson & cia se encontravam, ele, como um deus endiabrado com sua flauta comandava uma massa sonora facilmente indentificável, o som do Jethro Tull é muito peculiar, com apenas três faixas que tomavam o lado inteiro do disco, destacava-se "My God" uma ótima música extraída do "Aqualung", até hoje, o melhor disco do Tull, numa versão extendida com muitos solos da flauta nervosa de Ian, a guitarra de Martin Barre, simplesmente arrasadora durante o show é o destaque de "Sossity: you're a woman" do disco Benefit, completa o lado 1 "Reasons for waiting".

O lado 2, já com uma qualidade sonora bem melhor, é composto de cinco sobras de estúdio, nunca antes lançadas em LP, algumas apenas em lados B dos compactos, os destaques são "Love story" e "Christmans song", nas outras três faixas, "17"; "Sweet Dream" e "Whitch's Promisse", escuta-se o grupo em experimentos musicais capitaneados pela flauta de Ian e a guitarra de Martin. O lado 3 também retirado de um show, desta vez no Anaheim Convention Centre, Califórnia com data de 19 de junho de 1971, tem uma qualidade técnica um pouco melhor que o anterior, mas nota-se que a gravação deve ter sido feita "as escondidas" e com aparelhos não muito confiáveis, só que musicalmente esta fase do Tull foi muito boa e o grupo improvisava muito em cima de suas músicas, transformando sua audição num prazer, mesmo com a deficiência técnica, provavelmente este deve ter sido um show para um público reduzido, são apenas duas músicas, começa com "Wind-up" só no violão e flauta de maneira bem amena e tranquila, com Ian conversando com a plateia, tudo começa a esquentar quando tocam "Locomoive Breath" onde Ian desembesta com sua flauta numa jam pra lá de enlouquecida, um solo magnífico, mais de sete minutos, digno de Hermeto Pascoal, a pequena plateia delira.

O lado 4 também com sobras de estúdio, onde o destaque é uma versão bem diferente da excelente "Aqualung". Pode-se perceber um grupo bem afiado e entrosado nas versões de "Nothing is easy" e "To cry you a song".

Raridade total, pois temos o Jethro Tull em sua melhor forma, um disco que passa ao largo da discografia oficial do grupo.

Ano de lançamento: 1975

Ano de aquisição: 1976

Nota: Nunca compactuei com a pirataria, sempre preferi o original, isto já desde pequeno, mas confesso que quando ganhei este disco, fiquei extasiado. Quem leu o post anterior, o do "Ziggy Stardust" tomou conhecimento de uma tia, Nélia, do Rio de Janeiro que me conseguiu o disco, pois foi esta mesma tia quem me deu este do Tull, não que ela entendesse de rock, não entendia e nem entende até hoje, mas ao comprar o do Ziggy, por um pedido meu, resolveu me presentear com um outro disco e seguiu a dica do vendedor, que indicou este, acho que ela deve ter comprado o disco por ser diferente dos demais, devido a sua pigmentação. Ao recebê-lo, simplesmente não acreditei, pelo inusitado da situação, não imaginaria nunca que uma tia me daria um disco pirata e do Jethro Tull, que nem era muito famoso pelas bandas de cá, fiquei numa felicidade só, previa que tinha nas mão uma raridade. Belo presente, tia.

sábado, 23 de janeiro de 2010

LP The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars - David Bowie


O ano era 1972, o "sonho" tinha acabado, o rock estava sem rumo, os caminhos traçados por todos acabavam num mesmo lugar, a mesmice predominava nas artes, tudo inócuo, inóspito, a solução teria que vir dos céus, aqui na terra a estagnação era geral. Eis que surgindo quase do nada, numa rua deserta e sombria de Londres (como tem que ser a aparição dos extraterrenos, vide o Superhomem e o Exterminador do futuro), com seu visual andrógino e cores desbotadas, vindo do espaço empunhando uma guitarra, aquele que daria um novo sentido, um novo rumo ao rock, o capitão Ziggy Stardust. Com sua voz potente e melodias arrasadoras, ele mostrou um novo caminho a ser seguido, o rock depois dele nunca mais seria o mesmo, voltou a ser criativo e belo como antes.

Alter ego do extraordinário David Bowie, Ziggy Stardust foi um personagem criado pelo Camaleão do rock, criatura que ficou maior que o criador, assumindo identidade própria e catapultando Bowie para o superestrelato mundial, razões para isso não faltaram, este disco que de uma maneira conceitual mostra a passagem deste personagem pela Terra, é um primor de qualidade musical, ótimas música, todas elas quando escutadas separadamente já mostram qualidades individuais que teriam vida própria, quando escutadas num conjunto, beiram a perfeição, tornando o disco um dos maiores clássicos da história do pop rock mundial em todos os tempos, difícil é não encontrá-lo nas listas dos melhores de todos os tempos, seja de que maneira temática for, como recentemente encabeçou a lista dos cem melhores discos escolhidos pela turma GLS (mostrando que eles tem um ótimo gosto).

O disco começa com a desesperada "Five Years", Ziggy se assusta com o que vê na sua chegada a Terra, rock vigoroso com Bowie cantando como nunca, gritos de desespero, afinal só faltam cinco anos. O tom fica mais ameno em "Soul Love", o destaque é o sax de Bowie, na medida certa, em "Moonage daydream" quem se destaca é o excelente guitarrista Mick Ronson da banda "Spiders from Mars" solo ou duelando com os teclados ele prova que a solução tinha que vir do espaço, sensacional. "Starman" (que o brasileiro conhece bem através da terível e desvirtuada versão, "Astronauta de Mármore" pra lá de pop do grupo "Nenhum de Nós", nada a ver com a versão original), demonstra bem a apresentação de Ziggy ao novo planeta, melodia facilmente assobiável para os rumos a serem seguidos, fechando o lado A, "It ain't easy", com um vocal poderoso em contraponto com a voz dissonante de Bowie.

Com "Lady Stardust", Ziggy faz seu primeiro show, uma balada iniciada com um sutil piano para desembocar numa massa sonora emoldurando sua bela voz, os ares desesperados continuam só que mais amenos. "Star" um rockabilly digno dos grandes artistas onde o piano é o destaque e "Hang on to yourself" um apressado rock, que serviu de base para muita coisa feita nos anos 80, são a preparação para o grande finale do disco que começa com a ótima "Ziggy Stardust" com um riff de guitarra e vocalise confirmando os versos iniciais "Ziggy played guitar", ficou na história, a batida irresistível da bateria segurando tudo, os riff da guitarra e a voz de Bowie, formam um conjunto pouco visto, a guitarra como instrumento dos deuses, clássico incontestável, segue-se com a acelerada "Sufragette City" piano e guitarra ditando o ritmo, a mais dançante de todas, puro entusiasmo. O ritmo é quebrado com a introdução lenta só na base de violão de "Rock'n'Roll Suicide" que num crescendo chega ao ápice sonoro mostrando o mesmo desespero do início do disco, é o fim para Ziggy e seus seguidores, uma das mais belas, comoventes e desesperadas música da história do rock mundial. O trio de músicas finais deste LP é a tradução completa da grandiosidade do talento deste artista.

Um disco completo, da capa extraordinária, lembrada e reconhecida até hoje como símbolo das artes gráficas, a contra capa mostrando Ziggy dentro de uma cabine telefônica em referência ao Superhomem, formam um conjunto clássico. Um dos maiores clássicos já vistos no rock que mudou o seu rumo, ressurgindo-o das cinzas, mostrando ao mundo que o rock poderia ser revigorado. Insuperável até os dias de hoje, referência incontestável para os novos artistas, aqueles que não beberam desta fonte, se perderam no meio do caminho.

Ano de lançamento:1972
Ano de aquisição: 1976

Nota: É impressionante o fascínio que a música tem sobre as pessoas, como determinados momentos de suas vidas são marcados por esta ou aquela música, são lembranças que lhe seguem a vida inteira. Isto se aplica no meu caso de uma maneira ampliada, alguns discos marcaram a minha vida, quem acompanha este blog já deve ter percebido, "Killer" do Alice Cooper é um exemplo, "Close to the Edge" do Yes também, outro é este "Ziggy Stardust", garoto com dezesseis anos, eu já era fã do Bowie e tinha ouvido muito falar deste LP, mas aqui em Recife, na época, era uma raridade, não se encontrava em loja nenhuma, para consegui-lo o jeito foi apelar para uma tia minha, Nélia, que morava no Rio de Janeiro (compra pela internet, ainda nem era sonho), só que lá também estava difícil de encontrar, ela teve que apelar para a importação, pois sabia que eu iria passar as férias por lá, a cobrança pelo disco iria ser grande. Me lembro nitidamente da satisfação quando ela me entregou o LP em sua casa no bairro da Tijuca, ter aquele disco nas mãos e ainda por cima importado, os olhos brilhavam, não consegui fazer outra coisa a não ser abrir cuidadosamente o disco para escutá-lo, muitas e muitas vezes, lá mesmo na casa dela, ela e o marido saíam para trabalhar e eu ficava escutando as aventuras do Ziggy, fiz muitas outras coisas nestas férias no Rio, mas a que mais marcou foi o deleite de ouvir Ziggy num disco importado.

Será que a turma do MP3, consegue ter esta mesma satisfação? o que eles contarão daqui há alguns anos? Globalização é fogo.

Curiosidade: Segue abaixo, uma foto mais ou menos recente do local de "aparição" de Ziggy, imortalizado na capa do LP, notem que depois que Ziggy se foi, tudo ficou asséptico demais, meio sem graça, sem brilho, mas assim como a rua dos Beatles, virou um local eterno.


domingo, 17 de janeiro de 2010

LP Courage - Milton Nascimento

Milton Nascimento é mesmo um artista diferenciado, qual artista, brasileiro ou não, praticamente desconhecido, seria chamado para gravar nos EUA (meca financeira) logo após o lançamento de seu primeiro disco? isto há mais de quarenta anos atrás, o resultado é este belo disco, praticamente desconhecido na discografia do Bituca.

O seu debut americano foi pelas mão do excelente Eumir Deodato, que já desfrutava de um certo prestígio na comunidade musical americana e convidou Milton para gravar um disco americano, inclusive com arranjos do próprio Eumir, com o auxilio luxuoso de excelentes músicos que despontavam à época e que consolidaram suas carreiras ao longo do tempo, tais como Airto Moreira (percussão), Herbie Hancock (piano) e Hubert Laws (flauta).

O LP inicia com uma das melhores músicas já compostas por Milton até hoje e que o lançou nacionalmente "Travessia", cantada em inglês e português, esta dualidade linguística em nada prejudica sua qualidade, composição digna de gênio. "Vera Cruz" e "Três Pontas" tem suas qualidades instrumentais ressaltadas pelos arranjos de Deodato, um jazz fusion com molho brasileiro, balanço puro, o piano no final de Três Pontas é a marca do Hancock. "Outubro" com um arranjo mais clássico sobressaindo-se as cordas, não deixa de ter também o balanço típico do início dos anos 70, apesar de mais sóbria. "Courage" outra cantada em inglês e português, tem um estilo mais lento, o destaque é a percussão de Airto em contraponto as cordas.

O lado 2 do LP começa com "Rio Vermelho" com uma vocalise de Milton num balanço suingado, bem ao estilo sambalanço, mais uma vez a percussão de Airto predomina. "Gira Girou" composição de Milton e Márcio Borges tem uma intervenção de Herbie Hancock no piano simplesmente maravilhosa, puro jazz da melhor qualidade. "Morro Velho" é uma daquelas músicas que ficam na história da MPB por serem completas, letra, música, arranjo inigualáveis, a história dos amigos de infância indiferentes a diferença social entre ambos, e que na fase adulta esta diferença é desabrochada, tem uma força social muito maior do que muita tese de mestrado de sociólogo de plantão, coisa de gênio. "Catavento" é a única música que não tem acompanhamento de orquestra e por isso mesmo é a melhor do disco na parte instrumental, a flauta de Hubert Laws dialogando com o piano de Hancock, mostram a sutileza do lindo arranjo do Eumir. Para fechar o disco, mais uma suingada do Milton, "Canção do Sal" num arranjo mais acelerado que o habitual.

Este disco é um primor instrumental, com excelentes arranjos e músicos que ajudam a destacar a cristalina voz de Milton. Isto é uma prova de que grandes artistas já começam e continuam com grandes discos.

Ano de lançamento: 1969
Ano de aquisição: 1976

LP Before the Flood - Bob Dylan & The Band


Os "live album" podem tanto manchar uma discografia respeitável quanto assumir status de clássico, é o que se pode dizer deste LP de Bob Dylan, que na época chamou seu antigo grupo, The Band, para que juntos fizessem uma turnê, relembrando antigos sucessos. Hoje, além de verdadeiro clássico, este álbum duplo é um deleite para os ouvidos e é constantemente lembrado nas listas de melhores de todos os tempos no formato "ao vivo".

Para que este formato dê certo é necessário que haja uma simbiose entre plateia e artista, quando isto acontece tudo flui com mais facilidade, transformando o show numa verdadeira celebração artística. Depois de trabalharem por um bom tempo juntos, Bob Dylan e The Band já trilhavam separadamente caminhos próprios quando resolveram se juntar novamente para esta série de shows, eles estão em grande forma, ótimos instrumentistas que seguram a barra para a voz meio gutural de Dylan, é notório o entrosamento entre os músicos, como se eles nunca tivessem deixado de tocar juntos, com novas versões para antigos sucessos, sem modificá-los muito, vê-se uma levada mais funk para um dos clássicos de Dylan "Lay Lady, Lay", outro clássico contemplado com uma versão modificada com um andamento um pouco mais rápido, foi "Knockin' on heaven's door" símbolo da música de protesto nos anos 60.

Mesclando sucessos antigos com músicas menos conhecidas, inclusive dando oportunidade para que a The Band apresentasse composições próprias, o show/disco vai num crescendo até o seu final, quando é apresentada os maiores sucessos de Dylan, numa performance digna de grandes artistas, estão lá "All along the watchtower", "Highway 61 revisited" e as mais conhecidas "Like a rolling stone" e "Blowin' in the wind", transformando o seu final numa verdadeira apoteose.

Shows com uma mística diferenciada se transformam em shows (disco) históricos

Ano de lançamento: 1974

Ano de aquisição: 1976

DVD O CORPO - José Antônio Garcia






"Esse Marlon Brando é safado demais", reza Xavier no Cine Marabá, no centro de São Paulo, durante uma sessão de "O Último Tango em Paris". Depois de uma "noite do último tango" em casa, é Bia quem dispara: "você faz numa única noite o que o Marlon leva o filme inteiro para fazer"...

Que prazer rever "O Corpo", produção de 1991, ano em que ainda se voava de VASP pelos céus desse Brasil, como na cena final em que Carmem (Marieta Severo) e Bia (Cláudia Jimenez) se sentam nas poltronas de um avião, com nada menos do que um Daniel Filho posicionado entre elas e "recebendo o espírito" de um Xavier (Antônio Fagundes), que já virou rosas no quintal da sua própria casa...

Dirigido por José Antônio Garcia e baseado numa estória de Clarice Lispector, o filme é recheado de fantásticos momentos da mais pura e sofisticada tragicomédia urbana, daquela que só os grandes artistas - autores e intérpretes - podem nos oferecer, sem resvalar no vulgar, no óbvio ou no sem graça. E o filme é justamente o contrário de tudo isso.

Trata-se da estória de Xavier, um dono de farmácia mulherengo e boa pinta que vive, e muito bem, com as suas duas esposas na mesma casa. Depois da missa de domingo, por exemplo, que ele frequenta assiduamente com as duas companheiras, para escândalo geral, ele é alertado pelo delegado em vésperas de aposentadoria (Sérgio Mamberti) sobre as inconvêniencias do seu comportamento público, e dispara sem pestajenar: "Eu faço às claras o que os outros fazem escondido".

Tudo vai muito bem até o dia em que Xavier, desafiando não os padrões morais da sociedade, mas os padrões estabelecidos nos limites do seu lar e das suas companheiras, resolve arrumar uma amante, na verdade a prostituta Monique (Carla Camurati), que atende sempre com hora marcada e lhe proporciona momentos de extremo prazer quando verbaliza, no auge das suas atividades proibidas, o famoso "Goza, seu Filho da Puta"

Estória e interpretações de primeiríssima linha são completadas com nada mais nada menos do que a música de Paulo Barnabé e a coreografia de Leni Dale. O que dizer de um filme que tem participações especiais de Guilherme de Almeida Prado, Walter Hugo Khouri, Carlos Reichenbach e Arrigo Barnabé?

O filme é repleto de cenas antológicas, como por exemplo aquela do café da manhã tomado na cama à três, em que Carmem saboreia uma coxa de frango assado mergulhada numa lata de condensado. Ou quando Carmem, estimulada por Bia ("você merecia ser escritora... você já foi datilógrafa, para escritora é um pulo...") se investe de filósofa e propõe que "a saudade é um pouco como a fome, só passa quando se come a presença". Ou, ainda, quando Bia e Carmem confessam a noite de amor juntas ("o tempo custa a passar e a gente fica sem fazer nada...") e fazem o Xavier exprimir o seu mais puro sentimento de surpresa e admiração, seguido da curiosidade que não se realiza. "Felizmente ainda temos o Cauby", dispara uma Carmem vestida de preto sentada no sofá, enquanto o outro embala os corações da dupla ao som de "Blue Gardenia" pela TV preto-e-branco...

Apesar de não considerar que o filme seja datado, é fato que as cenas da viagem do trio ao Rio de Janeiro definitivamente deixaram uma marca ao incluir imagens dos letreiros dos locais mais badalados da época, como é o caso do Scala, do Oba-Oba e até mesmo da boate Help. Esse era exatamente o Rio de Janeiro do final dos anos 80 e início dos 90.

Sensual, colorido, passional, divertido, urbano e surpreendente, o filme faz parte inquestionável do grupo dos grandes clássicos do cinema nacional. Para se lamentar, apenas a qualidade da transcrição do filme para o DVD. Mereceria uma telecinagem de muito melhor qualidade.

Postado por Marcus Vinicius Midena Ramos

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

FESTIVAL FEIRA MÚSICA BRASIL 2009


O Brasil é um País com uma diversidade cultural impressionante, sem paralelo no mundo, talvez por suas dimensões continentais, a miscigenação dos povos, o que provocou o surgimento de diferentes culturas, a música, talvez seja, dentre todas as artes, a de maior apelo popular, a maior aglutinadora de pessoas. Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, pode-se dizer que sejam os Estados com os maiores expoentes da música feita neste País, é só ouvir Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi e Tom Jobim, para se ter certeza disto, isto sem falar nos incontáveis grandes artistas que povoam este País.

O prefácio acima é para mostrar a importância que foi a Feira de Música Brasil 2009, ocorrida aqui em Recife entre 9 e 13 de dezembro, sediada no Armazem 12, um armazem todo reformado no Porto do Recife, ao lado do "marco zero" local considerado como o de início da cidade. Além dos stands de gravadoras e produtoras, muitas rodadas de negócios, debates e conferências marcaram a feira deste ano, nestes locais, mais voltados para os profissionais da música, se conseguia alguns cds de cortesia, o que fazia a alegria dos não profissionais e apenas admiradores desta cultura que faz bem aos ouvidos, como o que aqui vos escreve, mas não era só isso, muitos, mas muitos shows fizeram a festa de todos os amantes da música.

Infelizmente por compromissos fora do Estado, só pude ir aos shows do Marco Zero nos dois últimos dias, no sábado, China abriu os shows substituindo a Zabé da Loca que por motivos de saúde não pôde se apresentar, China é um cantor compositor Pernambucano que fazia performances elétricas num palco, mas que ultimamente tem se apresentado de maneira mais "light", sem interferir, nem diminuir a intensidade e força de suas performances. Angariado de última hora para a grade do festival, ele e sua banda se apresentaram para uma ainda tímida e pequena plateia, num show competente e agradável, meio bossa, meio rock, meio mangue beat, como é peculiar ao som feito no Recife, uma mistura que transforma-se num som próprio. China foi muito bem. A próxima atração é um dos símbolos da música de raiz de Pernambuco, Aurinha do Coco, com seu compasso bem marcado e letras sempre bem humoradas, Aurinha desfilou canções de seu novo cd, lançado este ano, com músicas mais antigas, todas recheadas de uma pernambucanidade impressionante, a marcação do som com os pés é de contagiar qualquer espectador, o figurino alegre das pastoras, com suas bonitas vozes, que a acompanham, embelezam mais ainda a apresentação. Infelizmente depois deste show, por causa de outros compromissos, não assisti ao restante, se bem que tinha uma tal de Fresno, que me poupe.

No domingo, cheguei com a apresentação do "Duo Gisbranco" já começada, duo composto pelas pianistas, Claudia Castelo Branco e Bianca Gismonti (filha de peixe, peixinho é), para um show ao ar livre, um palco enorme e a plateia em pé, foi estranho a inclusão delas neste evento, um show intimista requer um teatro fechado, necessita-se de mais concentração, tanto para o artista quanto para o espectador, mas as meninas não fizeram feio, apesar da enormidade do local e o contratempo da chegada dos pianos minutos antes do início, conforme elas disseram. Bastantes competentes e integradas a situação, elas desfilaram perólas do cancioneiro popular para piano ou não, explorando ao máximo a sonoridade do piano na fronteira entre a música popular e erudita, mesclando material étnico diverso e estruturas complexas, bem recebidas pelo, infelizmente, pequeno público, aliaram segurança ao interpretar com um bom repertório. Perto do final, chamaram ao palco o cantor e compositor Paraibano Chico César, que além de mostrar sua competência como músico, se mostra também bastante competente como produtor capilar, cada aparição do Chico vem com uma surpresa no seu visual, fez sucesso, com sua malemolência e ótimas músicas, Chico acompanhado de violão e das meninas, roubou a cena, animando a plateia, fechando o show com chave de ouro.

Luiz Gonzaga é um daqueles artistas completo na concepção da palavra, criador de um estilo musical, o Baião, isto por si só, já o definiria como um dos mais respeitáveis músicos deste País, mas como se isto não bastasse, ele era um ótimo interprete, dando personalidade as músicas que interpretava, transformando uma penca delas em verdadeiros clássicos da MPB, dificil não se emocionar ouvindo Luiz cantar. Citado entre onze de dez artistas nacionais como referência, nada mais justo que no dia de aniversário de seu nascimento a Feira Música Brasil o homenageasse, principalmente em seu Estado natal Pernambuco. Bastante querido e admirado pelos Pernambucanos, Luiz Gonzaga ainda desfruta, apesar da concorrência do terível forró estilizado, de uma certa popularidade, percebido no aumento da plateia para este show de homenagem a ele. Com uma banda formada por músicos oriundos do movimento Mangue Beat, o show consistia na apresentação de diversos artistas cantando com arranjos próprios músicas imortalizadas pelo Rei do Baião. Iniciou-se com a apresentação emocionada do sanfoneiro Camarão, contemporâneo de Luiz, e tão bom quanto ele, logo seguido por Siba, ex-Mestre Ambrósio, quando tocaram juntos, a pernambucanidade do Siba cai como uma luva em suas interpretações, ficando-se a impressão que para cantar forró e baião, precisa-se do sangue nordestino, constatado nas apresentações dos outros pernambucanos, Junio Barreto, Isaar (num bonito duo com Vitor Araújo), Lirinha com sua legião de fãs e Otto fizeram as apresentações mais elétricas, a alegria por estar ali no palco contagiou a já numerosa plateia que respondia com uma felicidade estampada no rosto e cantando e dançando a maioria das músicas. Marina de La Riva, competente cantora da nova geração, escorregou um pouco em sua apresentação, faltou-lhe a nordestinidade e sobrou cubanidade. Vocês podem se perguntar o que fazia Arnaldo Antunes, um artista totalmente comprometido com a vanguarda paulistana, em um show em homenagem a Luiz Gonzaga? nada a ver, correto? enganaram-se, quando um artista é verdadeiramente talentoso, é bom em qualquer lugar, se lembram da questão da nordestinidade, que precisa ter no sangue? pois é, o Arnaldo fez cair toda esta teoria e ele simplesmente arrasou, cantou com um alto astral, demonstrando uma felicidade por estar ali no palco que contagiou o público que o ovacionou, perfeito, um grande artista. Já o mesmo não se pode dizer de Seu Jorge, o músico que tem a essência do samba no sangue derrapou na interpretação do forró, mesmo assim, agradou a plateia. Para fechar a noite todos se reuniram no palco e com um alto astral pra lá das nuvens, comandados pelo elétrico Otto, cantaram o "Pagode Russo", acompanhados pela efusiante e feliz plateia.

Show digno do artista homenageado, que deve ter acompanhado tudo lá de cima com a mesma felicidade vista nos artistas e grande público. Noite histórica.

domingo, 13 de dezembro de 2009

LP Lou Reed Live - Lou Reed


Disco com o complemento da gravação do histórico show realizado no Howard Stein's Academy of Music em Nova York em 21 de dezembro de 1973 (há exatos trinta e seis anos) que resultou inicialmente no extraordinário e antológico álbum "Rock'n'roll Animal", considerado hoje como um dos melhores shows da carreira de Lou Reed e como o disco anterior é extraordinário, por consequência este também é, por se tratar do mesmo show. O interessante é que este LP não fez tanto sucesso e nem teve o mesmo estardalhaço no seu lançamento quanto o anterior, talvez ao fato de a capa deste LP não ter o mesmo apelo figurativo da capa do outro, o que o torna hoje um disco pouco conhecido, pior para quem não o conhece.

Com músicas que não foram incluídas no "Rock'n'roll animal", verifica-se o mesmo vigor e peso do seu predecessor, o álbum inicia com a clássica "Vicious" numa agressiva versão de seis minutos onde Reed parece querer expulsar seus demônios através da voz e guitarra, puro deleite. Segue-se com "Satellite of love" com uma introdução de guitarra de arrepiar os pêlos, Lou e grupo estavam inspiradíssimos neste show, com destaque para o ótimo guitarrista Dick Wagner.

"Walk on the Wild Side" outro clássico, onde Lou vomita sobre a plateia o lado selvagem das ruas de Nova York, com uma raiva como se estivesse querendo extirpar toda a crueldade do cotidiano da maior metrópole do mundo, o lado sombrio de uma cidade quase nunca mostrado e que ele tão bem sabe registrar.

O lado 2 do LP, também com apenas três músicas, começa com "I'm waiting for the man" com uma interpretação pra lá de vigorosa, Lou e músicos num peso total, "Oh Jim" um pertardo musical de mais de dez minutos onde sobressai-se a guitarra de Dick em solos magistrais, ao fundo a bateria quebrando tudo, por fim "Sad song" em mais uma versão extendida, começa bem tranquila com um órgão ao fundo, para depois mostrar toda a sua força numa interpretação bem equilibrada, mais uma vez a guitarra arrasa.

Mestre em versões extendidas de suas músicas em shows, Lou Reed improvisa como poucos o que faz com que seus shows sejam sempre uma celebração musical de grande criatividade, especificamente esta noite teve uma magia própria, tão bem registrado nos dois discos.

Ano de lançamento: 1975

Ano de aquisição: 1976

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

LP POP GIANTS Vol. 13 - Lou Reed


Mais uma coletânea para suprir a necessidade à época de se conhecer algo mais dos artistas, como já disse aqui, naquela época era quase impossível se conseguir discos antigos dos artistas, as lojas de discos só trabalhavam basicamente com os lançamentos e os hoje tradicionais "sebos" não existiam, então era apelar para as coletâneas. Não sei se por causa da qualidade dos artistas, mas as coleções eram bem legais, as capas eram um terror e ficaram bem datadas, com o tempo conseguiram um certo charme, talvez devido a mudança de conceito ou simplesmente pelo costume de vê-las. Com um repertório bem escolhido o que dava uma certa unidade ao disco, recheados de sucessos, era garantia de boa música, valendo cada moeda (não me lembro qual era a da época, já foram tantas) gasta.

Elaborar uma coletânea de Lou Reed, pode ser uma tarefa bem fácil, ou se tornar bastante difícil, tamanha a quantidade de boas e excelentes músicas que o poeta das ruas já nos brindou, fácil porque ele tem uma enormidade de canções o que torna-se difícil é escolher apenas doze. Pertardos sonoros como "Sister Ray" com quase quinze minutos de guitarras distorcidas e microfonias, fazem Jesus & Mary Chain parecer aprendizes, Lou destila em seus versos o amor, paixão desenfreada, solidão, relacionamentos desgastados, drogas, violência urbana, retratados sob o olhar crítico vindo da convivência diária dos seus pares.

"Heroin", "Sunday morning", "White Light/White Heat" e "Femme Fatale" são exemplos da genialidade deste músico que sempre viveu a margem do sucesso, talvez para não pagar o preço da perda da liberdade criativa e criatividade e excelência é o que não lhe falta até hoje.

Ano de lançamento: 1974

Ano de aquisição: 1976

domingo, 6 de dezembro de 2009

LP A Arte de Chico Buarque



Quando descobri Chico Buarque, aos quinze anos, já perto dos dezesseis, foi logo na sequência da descoberta dos Beatles, artistas de tamanho quilate foram primordiais na minha formação musical, no sentido de acostumar os ouvidos com músicas de qualidade, confesso que escutar estes discos à exaustão, analisando todas as suas nuances, foi um exercício dos mais prazerosos, fui identificando a qualidade sonora de cada nota, aprimorando o gosto a fina música. Mas o que artistas tão dispares como Chico Buarque e Beatles podem ter em comum? a genialidade musical, cada qual em seu estilo mostraram a amplitude que se pode chegar com a junção de notas musicais, para tal é necessário apenas o talento.

Este LP duplo, coletânea dos seus maiores sucessos do início de carreira, era uma maneira naquela época, como já disse aqui, de conhecer o trabalho anterior dos artistas, tendo em vista que era quase impossível se conseguir os discos oficiais, pois estavam quase todos fora de catálogo, o máximo que se encontrava nas prateleiras das lojas eram os lançamentos ou os discos do ano anterior. Esta coleção denominada "A Arte de" se diferenciou das demais pela qualidade do repertório escolhido que compunha os seus discos. Em coletâneas, a escolha das músicas é algo fundamental para o sucesso do projeto, e neste funcionou muito bem, tanto é que até hoje esta coleção sobrevive, sempre sendo relançada.

O melhor de Chico Buarque está aqui presente, "Construção", "Bom Conselho", "Fado Tropical", "Deus Lhe Pague", "Cotidiano", "Sinal Fechado", um pouco de cada fase, deste que é sem dúvida o melhor letrista que este País já teve, seus versos tocam profundamente a alma de quem o escuta, outro ponto alto é a qualidade instrumental de suas composições, Chico é um ótimo melodista, o rebuscamento de seus arranjos destacam mais ainda a excelência de suas letras, num casamento perfeito, o que nos faz deixar de lado o sofrível cantor que ele é, mas com tanta música boa a gente se acostuma.

Ano de lançamento: 1975

Ano de aquisição: 1976

sábado, 5 de dezembro de 2009

LP OS REIS DO IÉ, IÉ, IÉ - The Beatles


"A Hard day's night" é um dos poucos discos dos Beatles onde a quantidade de músicas que ficaram na história é mínima, apesar de o filme homônimo ter sido um estrondoso sucesso, além da faixa título, "I Should have know better", "If I Feel", "And I love her" e "Can't buy me love" é que ficaram no imaginário popular e são facilmente assobiáveis, o que convenhamos em se tratando de Beatles é inacreditável.

Comentar sobre músicas que já estão impregnadas no seu subconsciente é tarefa das mais fáceis, incontáveis já foram as críticas e estudos sobre elas, portanto me ative a analisar as músicas que por algum motivo não foram sucessos, como é o caso de "I'm Happy just to dance with you" mais uma das alegres canções com estrutura melódica características dos rapazes de Liverpool, porque não fez sucesso é um mistério, "Tell me why" apesar de um pouco mais conhecida, é uma típica música facilmente creditada a John Lennon, mais vibrante e vigorosa.

O engraçado é que praticamente todo o lado 2 do LP, ficou meio esquecido do grande público, talvez por não fazerem parte do filme, mas é onde mais brilha o talento genial dos Fab Four, que apesar do crédito como compositores se dado a dupla mais famosa do mundo, fica evidente as características musicais de cada um, exercício este que acompanha Beatlemaníacos pelo mundo afora até hoje, descobrir com quem mais se parecia as músicas. John com seu estilo vibrante e mais inovador, dá vida a músicas como "Any time at all", "I'll cry instead" que deveriam figurar entre os grandes sucessos dos Beatles. Paul McCartney, com seu estilo musical rebuscado é o responsável por pérolas praticamente desconhecidas do grande público e principalmente da turma mais jovem, como "Things we said today", John mais uma vez se destaca em "When I get home" delicioso rocker dançante.

Surpreendentemente o quase desconhecido lado 2 deste disco, quando analisado com imparcialidade, mostra que a qualidade sonora faz jus ao grande talento dos rapazes, músicas que conseguiram ficar incólumes ao tempo, justificam mais ainda o prestígio que os Beatles desfrutam até hoje.

Ano de relançamento: 1974
Ano de aquisição: 1976

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

OS DEZ MELHORES DE 1975 - NACIONAL


No post anterior foi a lista dos dez melhores internacionais, esta é dos dez melhores LPs Nacionais do ano de 1975, não necessariamente lançados no ano e sim os adquiridos no ano, vamos lá, sempre com controvérsias.

1º - Minas - Milton Nascimento - Simbiose perfeita entre músicos, composição, arranjo, letras e voz, evolução de um movimento batendo quase a perfeição.

2º - Fruto Proibido - Rita Lee - Base para tudo que foi feito no rock nacional até hoje.

3º - Matogrosso - Ney Matogrosso - Virada musical de um cantor, experimentações musicais como prenúncio de uma evolução.

4º - Krig-ha, Bandolo - Raul Seixas - Inovador, polêmico, irreverente, quebrando barreiras da sistemática métrica musical, plantando raízes indissolúveis no rock nacional.

5º - Molhado de suor - Alceu Valença - Precursor da mistura de ritmos do rock nordestino, inovador da sonoridade de raízes.

6º - Novo Aeon - Raul Seixas - Disco fundamental para a continuidade do rock nacional, irreverência e inovação como princípios básicos.

7º - 1990 - Projeto Salva Terra - Erasmo Carlos - Sem a sombra do Rei, Erasmo mostra que sabe fazer rock dos bons.

8º - Milagre dos Peixes ao vivo - Milton Nascimento - Celebração do Clube da Esquina em duas noites mágicas com instrumentação e voz numa integração absolutamente bela.

9º - Snegs - Som Nosso de Cada Dia - Rock progressivo nacional rivalizando em qualidade com o feito lá fora.

10º - A Arte de - Caetano Veloso - As melhores músicas do poeta baiano, as melhores músicas do cancioneiro nacional.

OS DEZ MELHORES DE 1975 - INTERNACIONAL


Como já falei, todo colecionador tem um fascínio sobre lista dos melhores e como estas listas dão um trabalhão danado para elaborar, resolvi fazer uma para cada ano, não inclui necessariamente os discos lançados só em 1975 e sim os discos adquiridos no ano, então vamos lá, apesar das controvérsias.

1º - Physical Graffiti - Led Zeppelin - Músicos excepcionais, o rock pesado elevado ao status de arte. Disco histórico.

2º - Close to the Edge - Yes - Músicos excepcionais, o rock progressivo elevado ao status de arte. Disco histórico.

3º - Blood on the Tracks - Bob Dylan - Lamento, melancolia, sentido de adeus inevitável, humor malicioso, raiva e alegria em versos inteligentes emoldurados por voz e música emblemáticos.

4º - Quadrophenia - The Who - Ópera-rock sobre rebeldia, depressão e frustação com som furios e vigoroso.

5º - It's Only Rock'n'roll - The Rolling Stones - É apenas rock and roll (com a melhor banda do mundo), mas eu gosto.

6º - Young Americans - David Bowie - Branquelo inglês cantando soul como negro americano, supimpa.

7º - Sally Can't Dance - Lou Reed - O poeta das ruas em sua fase mais pop.

8º - Venus and Mars - Paul McCartney - Linha melódica de um famoso grupo, repleto de baladas elegantérrimas, classe total.

9º - Out of our Heads - The Rolling Stones - O frescor da juventude da maior banda de rock do mundo. Satisfação total.

10º - The Myths and Legends of King Arthur ant the Knights of the round Table - Rick Wakeman - O Rei Arthur através do virtuosismo do Mago dos teclados, sinfonia do rock.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

LP Beatles Again - The Beatles


Segundo LP dos Beatles lançado pela Odeon nacional trazia músicas dos discos ingleses "Please Please Me" e "With The Beatles", assim como algumas músicas de compactos ingleses. Acho que até hoje não se consegue entender porque a subsidiária brasileira da Odeon lançava discos dos Beatles sem a capa original e com as músicas correspondentes, será que não acreditavam no potencial do grupo? este LP foi lançado originalmente em 1964 e a versão que tenho foi em 1974, ou seja dez anos depois eles ainda não lançavam os discos originais, será que a intenção era transformá-los em raridade?

Não se tem muito o que falar dos Beatles, que eles foram os melhores, ninguém discute mais, só posso dizer que nesta minha empreitada inicial de colecionador, nunca um grupo me encantou tanto quanto os Beatles, sua descoberta abriu um horizonte em meu gosto musical que tem reflexos até hoje, as vezes quando encho um pouco o saco de ouvir as novidades musicais, são eles que mostram o sentido da música, independentemente da fase, que se tratando de Beatles, são bem específicas, a deste disco mostra o frescor e juventude do início de carreira, alegria estampada não só na música como em seus rostos, tudo era festa, como deveria ser, o momento vivido com a intensidade que deveria ser vivida, foi a base necessária para o desabrochar do talento de cada um verificado num crescendo nos discos posteriores.

O disco, uma miscelândia de outros dois, tem uma das músicas mais vibrantes e que considero uma das melhores interpretações deles, a versão de "Twist and shout" que até hoje não foi suplantada, para os incautos poderia ser de autoria da dupla mundialmente mais famosa, tanta a força interpretativa. Além dela, outros clássicos, quase todas, "Please please me", "From me to you", "All my loving", "Love me do", "Can't buy me love", simplesmente irresistível.

Este LP virou raridade por ter uma capa diferente dos lançamentos oficiais, afinal, para Beatlemaníaco, tudo refernte a eles é motivo de adoração. Executivos visionários.

Ano de lançamento: 1964
Ano de relançamento: 1974
Ano de aquisição: 1976

domingo, 29 de novembro de 2009

Festival JAZZ PORTO 2009 - 27/11/09




O segundo dia do JAZZ PORTO 2009, começou com uma presença maior de público do que na noite anterior, não como merecia o festival, afinal shows gratuitos, em um local aprazível, era para ter mais gente, a noite mais uma vez estrelada, com aquela brisa agradável, começou com a apresentação do Trombonada (foto), grupo de música instrumental formado por um quinteto de trombones acompanhado por base harmônica e rítmica (guitarra, baixo, teclado e bateria) que surgiu em 2005, com a proposta de difundir a música para o trombone e popularizar o mesmo. O repertório apresentado foi totalmente voltado para a música de Pernambuco com influências e fusões com vários ritmos (rock, pop, jazz, jazz latino, funk, samba etc), o resultado deste caldeirão sonoro é uma música contagiante, vibrante, totalmente balançada e que agradou em cheio o público presente, a quantidade de cds comprados durante o show comprovava a aceitação do grupo. Cinco ótimos trombonistas que se revezavam nos solos e numa interação perfeita entre eles, alegria ao tocar juntos, esta foi a tônica da apresentação. Com os pé fincados na música pernambucana e os olhos e ouvidos voltados para outras culturas musicais, a Trombonada prova que é possível ser regional dialogando com o mundo. E como não poderia deixar de ser, finalizaram o show tocando um frevo que levantou a já animada e feliz plateia, com todo mundo continuando a dançar, bela apresentação.


A outra atração da noite foi o guitarrista argentino Danny Vincent, e como a rivalidade Brasil - Argentina é só no esporte, principalmente futebol, ele foi bem recebido, apesar de algumas gracinhas que pelo visto ele tirou de letra. Com um estilo mais elétrico e com nítidas e velada influência do extraordinário Carlos Santana, Danny começou o show já elétrico tentando animar a um pouco mais numerosa plateia, sem muito sucesso, alguns poucos já acima do teor etílico é que se dispuseram a acompanhá-lo em sua agitação. Com músicas próprias pouco conhecidas, apesar do seu virtuosismo e de ótimos acompanhantes, ele não conseguia empolgar a plateia, mesmo quando tocou Santana, foi preciso a entrada do peso pesado Big Joe Manfra para agitar a plateia, mas ele parecia não estar numa noite muito inspirada, deu o seu recado, tocou duas músicas, empolgou, e foi embora, para o seu tamanho foi uma apresentação relampago.


Quando a apresentação seguia morna, Danny com seus solos de guitarra, sem entusiasmar muito, ele caiu na besteira (besteira pra ele, claro) de chamar ao palco o Karl Dixon, é, aquele negão, opsss, afro decendente que arrasou na noite anterior, subiu ao palco com sua roupa branca e hoje com o mesmo chapéu estiloso só que na cor roxa e óclinhos escuro combinando com o chapéu, com um figurino deste e com sua malemolência, o resultado não poderia ser outro, foi só soltar a voz que a plateia caiu em delírio e literalmente não deixou o negão sair mais do palco, o coitado do Danny ficou em segundo plano, só dava Karl, quando ele atacou de "I Feel Good", a festa foi geral, ninguém ficou parado, engatou com "Happy Days" e a celebração foi total, se a noite anterior ficou na história, esta ultrapassou, o Karl comandando tudo, subiu todo mundo no palco a dançar, a galera embaixo extasiada com aquele som todo, Karl e companhia voltaram duas vezes ao palco, exigência do público, ninguém queria que terminasse o show, Porto de Galinhas viveu um momento único, uma noite mágica, quem presenciou se deleitou, aqueles que ficaram nos chiques resorts acumulando calorias, novamente perderam uma oportunidade de celebração da vida, através da música.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Festival JAZZ PORTO 2009 - 26/11/2009




Realizar um festival de Jazz em uma das mais badaladas e visitadas praias do litoral Pernambucano, em pleno começo do verão, hotéis lotados, resorts idem, turistas a dar no pau, noite estrelada, palco montado quase a beira mar, no meio do agito, brisa agradável, esta conjunção de fatores leva a crer que o público lotaria a praça para os shows gratuitos, certo? nada, errado, turista quer mesmo é passear durante o dia nas belas praias e a noite se enclausurar nos restaurantes chiques dos chiques resorts e acumular calorias. Isto, é o que pode-se deduzir do reduzido público que compareceu ao 1º dia do 3º Festival de Jazz e Blues de Porto de Galinhas, aberto pelo veterano grupo de Jazz Pernambucano Contrabanda (foto), que vem se destacando no cenário musical recifense desde o seu início em 1987, apresentando em seu trabalho uma mistura de clássicos do jazz, bossa-nova, MPB e canções originais.


Em seu show, neste JAZZ PORTO 2009, a "Contrabanda" utilizou como sempre a linguagem jazzística, imprimindo um forte conteúdo emocional que, aliado à constante improvisação, levou o pequeno público a aventuras musicais inusitadas e excitantes. Comandados pelo excelente maestro e saxofonista Edson Rodrigues, figura das mais expressivas no meio musical do Recife e com ajuda dos ótimos integrantes do grupo, desfilaram desde composições próprias até standards dos mestres do jazz como Duke Ellington, foi uma apresentação bastante competente que agradou em cheio a plateia ali presente e como não poderia deixar de ser, como um bom conjunto pernambucano, encerrou sua apresentação com um frevo que botou todo mundo para dançar.

A outra atração da noite foi o blueseiro e gaitista Flávio Guimarães, já reconhecido nacionalmente e com uma carreira consolidada, um dos fundadores do ótimo "Blues Etílico", Flávio não decepcionou, com uma banda enxuta, baixo, guitarra e bateria, desde a primeira música ele ganhou a plateia, seu show, calcado num repertório do blues tradicional, mostrou todo seu virtuosismo com suas inúmeras gaitas, quando a levada era mais para o blues elétrico a empolgação era geral, principalmente quando convidou a subir ao palco os integrantes da Contrabanda o saxofonista Edson Rodrigues e o trompetista Fábinho Costa que simplesmente arrasaram com seus solos de improviso arrancando aplausos entusiasmados do infelizmente pequeno público, a satisfação estampada no rosto do Flávio, demonstrava que ele estava curtindo muito estar ali tocando em Porto de Galinhas.


Logo após subiu ao palco, como convidada, a cantora e também blueseira Taryn Szpilman, com sua figura exótica, encantou a todos com sua performance no palco, sua bela e envolvente voz, moldada para o estilo blues, agitou a galera, principalmente a masculina, pena que ela cantou só uma música.

A apresentação continuava num estilo informal, pequeno público junto ao palco, transformava aquela apresentação quase num encontro de amigos, sem formalidade nenhuma, todos totalmente leves, soltos e contentes a música fluia agradando aos ouvidos de todos. Aí o Flávio chama para o palco um tal de Karl Dixon, levanta da mesa vizinha a minha no Budega Bar, um negão, opsss, afro decendente, que eu jurava que era mais um pai de santo do que um músico, todo vestido de branco, corpo atlético, um chápeu estiloso preto e uns óclinhos escuros a la Lennon, sobe ao palco com a malemolência dos baianos, apesar de ser de Nova York, amigos, quando este negão soltou a voz, não teve mais pra ninguém, acho que o cara era espírita, uma hora via o James Brown, outra o Wilson Picket, enfim, o cara simplesmente arrasou, botou todo mundo pra dançar, pular, cantar junto, transformando a Praça das piscinas naturais, numa verdadeira celebração da boa música. Para terminar, subiram todos ao palco em uma Jam Session para ficar na história daquele lugar, um transe total, um momento único que aqueles que acumulavam calorias nos chiques restaurantes perderam, pior pra eles.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

LP e CD Minas - Milton Nascimento


Minas, sempre foi um berço muito pródigo em artistas, de tempos em tempos surgem levas deles que ganham projeção nacional, um dos maiores exemplos são o pessoal do Clube da Esquina, grupo de músicos que apareceram no final dos anos 60 e início dos anos 70, para dar uma renovada na MPB, nada mais justo que o maior expoente deste grupo lançasse um disco, homenageando no seu título o seu Estado, mesmo que a intenção fosse a junção das primeiras letras de seu nome, nada mais amplo para exprimir a grandiosidade deste disco. Muito se fala do "Clube da Esquina" disco seminal e um verdadeiro divisor de águas na sonolenta MPB da época, mas na minha modesta opinião, o disco mais completo de Milton Nascimento é este, se no Clube ele plantou sementes da evolução de sua música, com "Minas" ele bateu a porta da perfeição, numa demonstração da capacidade dele e de sua turma em se aperfeiçoar, se aprimorar, nenhum disco, depois deste, nem os de nosso maestro maior Tom Jobim, nestes últimos trinta e cinco anos, conseguiram uma simbiose tão perfeita entre músicos, composição, arranjo, letras, voz, resultando numa força de interpretação e sensibilidade de deixar atônitos a quem o escuta.

O disco começa de maneira surpreendente em sua faixa título com um coral de crianças e um vocalise de Milton e o violão de Nadim Othemicson, é de quase fazer você chorar de tão bonito. A incerteza do início de carreira nos versos da excelente "Travessia", "Solto a voz nas estradas, já não quero parar, meu caminho é de pedras, como posso sonhar......vou fechar o meu pranto, vou querer me matar", deu lugar a certeza de que a travessia deu certo, nos versos de "Fé cega, faca amolada", "agora não pergunto mais aonde vai a estrada, agora não espero mais aquela madrugada" cantada em duo com o ainda pouco conhecido integrante do Clube da Esquina Beto Guedes e pontuada pelo sax de Nivaldo Ornelas, brilha que nem uma faca amolada.

"Beijo partido" de Toninho Horta, outro integrante do Clube, talvez seja a música onde há o mais perfeito casamento entre a voz de Milton e arranjo, muitos cantores e cantoras tentaram cantar esta música, mas nenhum conseguiu chegar perto desta belíssima interpretação, com seu andamento mais lento, consegue-se sentir todas suas nuances, mais uma vez brilha o sax de Nivaldo Ornelas para complementar a voz de Milton. "Saudades dos aviões da Panair" é uma daquelas músicas com uma força que ao escutá-la, dá uma saudade danada de alguma coisa, ela é tão envolvente, tão agradável que me lembro que ao ouvi-la, sentia uma saudade dos aviões da Panair, mesmo sem nunca ter voado neles, aliás nem sabia de sua existência, ainda dizem que não há magia na música.

Segundo o próprio Milton, o circo sempre lhe fascinou, apesar de uma arte sinônimo do popular, a refinada "Gran Circo" é a homenagem de Milton aos mestres dos picadeiros, é engraçado como uma música bastante complexa, antítese da simplicidade do popular, possa tão bem expressar aquela arte, poucos conseguiram, Chico Buarque e Edu Lobo são um exemplo. A música seguinte "Ponta de areia" é carregada de mineirice, o coral ao fundo nos remete a chegada e partida de um trem, ouvi-la é como passear num daqueles antigos vagões que cruzam matas da ferrovia entre Ouro Preto e Mariana, uma saborosa viagem aos sons da terra do "tutu", mais uma vez o excelente Nivaldo Ornelas arrasa com seu sax.

Com um ótimo time de músicos, quase todos mineiros, que o acompanha desde os tempos do Clube da Esquina, poderia se ter um resultado satisfatório na difícil "Trastevere" onde acordes atonais da orquestração de Wagner Tiso dão beleza a excelente letra de Ronaldo Bastos, logo engatada na vibrante "Idolatrada" bem mais fluída, num verdadeiro contraponto a música anterior. "Leila (Venha ser feliz)" é uma homenagem instrumental, praticamente só com vocais, a uma das mulheres brasileiras mais fascinantes que se tem notícias, Leila Diniz, um verdadeiro furacão que revolucionou o sentido de ser mulher neste País, isso em plena ditadura militar, qualquer uma, hoje em dia, é fichinha na frente dela, a justa homenagem de Milton está a altura da homenageada, uma música vibrante, alegre feliz, pra frente, como Leila.

Uma parceria entre Milton e Caetano Veloso é sinal de qualidade musical, como se vê em "Paula e Bebeto", ninguém consegue falar do amor com tanta inteligência quanto Caetano, talvez só Chico, temos a certeza disto com esta música, os seus versos ampliam o sentido do relacionamento entre duas pessoas, sejam elas quem forem, "qualquer maneira de amor vale amar, qualquer maneira de amor valerá", é isso aí. Qual músico teria coragem de terminar um disco com uma melodia lenta, principalmente após uma, belamente acelerada e totalmente assobiável? só Milton com "Simples" uma simples canção com arranjos de cordas e mais uma vez com uma força interpretativa de arrepiar, pra fechar com chave de ouro.

No cd há dois "bonus track", uma irreconhecível "Norwegian Wood" dos Beatles, com um arranjo mais rebuscado, cantada em duo novamente com Beto Guedes e mais uma vez o sax de Nivaldo Ornelas se destacando e "Caso você queira saber" também em duo com Beto Guedes.

A belíssima capa, assinada por Cafi, Noguchi e Ronaldo Bastos, com um papel laminado diferenciado era um destaque a mais deste excepcional disco, prova da maturidade de um músico que canta, nos encanta e nos emociona até hoje.

Ano de Lançamento: 1975

Ano de aquisição do LP: 1975

Ano de aquisição do CD:07/1998

Nota: Uma das maiores lembranças que tenho deste disco, remete a uma notícia que vi no programa "Sábado Som" com apresentação do Nelson Mota que já comentei aqui no blog, a notícia lida por ele, dizia que o Milton estava totalmente falido antes do lançamento deste disco, por problemas com seu empresário à época, felizmente não seguiu a linha de Simonal. Fiquei bastante sensibilizado com a notícia e fui correndo comprar o LP para assim poder ajudá-lo, estava começando a descobrir a grandeza do Milton. Não sei se fui responsável pela recuperação financeira do Milton, só sei que adquiri um excepcional disco, isto, devo ao Nelson.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

LP e CD Novo Aeon - Raul Seixas


Ainda sob a égide da Sociedade Alternativa, Raul Seixas lança seu terceiro álbum solo, já com projeção nacional, conseguida pela música "Ouro de Tolo" e pelo disco anterior "Gita", com isso a espera e cobrança com o novo lançamento aumentaram e Raulzito não decepcionou. Na época a MPB passava por uma fase ruim, poucos lançamentos expressivos, salvavam-se Ney Matogrosso e Milton Nascimento, o pop rock nacional ainda não havia decolado, engatinhava tropeçando nas suas próprias fraldas, coube a Rita Lee e o próprio Raul com suas músicas darem alento para que saíssem do fraldário, foram fundamentais para isso.

Continuando sua parceria com o hoje místico e escritor platinado Paulo Coelho, que nos brindou com grandes pérolas do nosso cancioneiro, inventivas que oxigenaram a letrada letargia por que passavam os compositores nacionais, principalmente no pop rock, é impensável acreditar que ele tenha ficado assustadoramente conservador, o dinheiro fala mais alto.

O disco começa com a ótima "Tente outra vez" que virou nos dias de hoje "hino de tudo", só que na época não foi assim, passou meio que despercebida, provando que Raul estava a frente de seu tempo, a letra é um primor, merece o sucesso que tem hoje. "O Diabo é o pai do rock" já diria ele em "Rock do Diabo", alguém duvida? um rock meio anos sessenta, em plena ditadura e conservadorismo falar abertamente sobre o diabo, haja coragem. Raul era daqueles que batiam e assopravam, é o que se vê logo após na açucarada balada "A Maçã" uma bela e rasgada canção de amor, haja ecletismo, e novamente a letra se sobressai "Amor só dura em liberdade, o ciúme é só vaidade" este é o Raul romântico, só que logo depois ele se considera egoísta em "Eu sou egoísta" com direito a referência a Caetano Veloso. E tome mistura de baião e embolada em "Caminhos" quando isto era impensável.

É em "Tu és o MDC da minha vida" que a dupla mostra toda a verve e visão da sociedade da época, espécie de continuação de "Ouro de Tolo" só que num ritmo mais balançado, talvez o prenúcio do tecno brega, eles descrevem de maneira perspicaz acontecimentos da vida urbana citando personagens polêmicos como o o ultra conservador e radical apresentador de TV Flávio Cavalcanti, mostrando mais uma vez que estava se lixando com qualquer tipo de patrulhamento ideológico, afinal para os descolados da época era uma heresia falar deste personagem, quem conseguiria rimar bode com Pink Floyd? só Raul mesmo e tudo isto numa levada brega, demais.

Outra música que causou estranhesa foi "É fim do mês" com sua diversidade de estilos musicais, mais uma vez Raul mostra sua qualidade como letrista e cronista do dia a dia, suas letras merecem um estudo sociológico. Fechando o disco a música que lhe dá título começando com sons de uma toada, para logo cair num rock em mais um manifesto da sociedade alternativa.

Célebre por suas frases feitas e polêmicas, cito apenas duas que exprimem muito bem a faceta de Raul e mostram porque ele foi taxado de Maluco Beleza.


"A arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal"

"O sonho do careta é a realidade do maluco"

Alguém aí, pode contradizê-lo?


Ano de lançamento: 1975
Ano de aquisição do LP: 1975
Ano de aquisição do CD: 04/2000

domingo, 15 de novembro de 2009

LP Milagre dos Peixes Ao Vivo - Milton Nascimento

Gravado ao vivo no fabuloso Theatro Municipal de São Paulo, nos dias 7 e 8 de maio de 1974, durante a turnê de lançamento do disco de estúdio "Milagre dos Peixes", acompanhado do excepcional "Som Imaginário" grupo seminal da música instrumental brasileira, composto apenas de feras, como Luis Alves, Robertinho, Toninho Horta, Nivaldo Ornelas e Wagner Tiso, que até hoje continuam sendo o supra sumo do instrumental feito no Brasil, além de Orquestra que contava nos seus quadros com o jovem e até então desconhecido Mauro Senise, hoje, um dos grandes nomes dos sopros no País. Como se não bastasse, as orquestrações foram fitas por Wagner Tiso, Paulo Moura e Radamés Gnatalli que considero juntamente com Heitor Villa lobos e Tom Jobim os três maiores nomes da Música Brasileira, coube a regência ao espetacular Paulo Moura.

Com a excepcionalidade destes músicos, o resultado só poderia ser um álbum duplo primoroso, Milton Nascimento já desfrutava de um certo prestígio, proveniente de um trabalho sofisticado e de alta qualidade, composições refinadas e dono de uma voz cristalina, considerada uma das mais perfeitas deste País. O disco começa com uma belíssima suite instrumental "A Matança do Porco/Xá-Mate" interpretada pelo Som Imaginário, oriunda de um dos clássicos álbuns do grupo, eles plantaram a semente da música instrumental brasileira que é feita até hoje. O disco segue com músicas que viraram clássicos e são tocadas e estudadas hoje em dia, como composições de um estilo que primam pelo bom gosto, "Milagre dos Peixes", "Outubro", Sacramento". A interpretação da música que é sinônimo de positividade "Nada será como antes" parece transparecer o alto astral do show, Milton alegre, solto e de bem com a vida e com a carreira, torna a música mais bonita do que é. Ataca de bossa nova em "Sabe você" de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, com sotaque mineiro num arranjo cheio de nuances, mostrando uma nova faceta da bossa.

Arranjos ainda mais sofisticados para as já sofisticadas músicas, fazem este álbum diferenciado, Milton optou por dar um tratamento diferenciado as suas composições, sem distorcê-las, privilegiando a parte instrumental, dando asas ao maravilhoso time que lhe acompanhava, "Viola Violar" ganhou um solo de sax que só a abrilhantou, o show vai desfilando sucessos atrás de sucessos, "Cais", "Clube da esquina", "San Vicente". Com um arranjo magistral de Radamés Gnatalli, "Tema dos Deuses" só no vocalise, ganha a erudição que precisava, tornando-a quase uma peça clássica, perfeita. O show finaliza como começou, privilegiando o lado instrumental e vigoroso de "Pablo" levando ao delírio a plateia.

Foram duas noites mágicas, como pode ser verificado pela audição de um álbum que se tornou referência de qualidade musical. Milton, um músico cantor, sempre primou pelo requinte no seu trabalho musical, nos brindando com composições elaboradas que elevaram a MPB ao status de música de primeira grandeza e isto ele estava ainda nos princípios da carreira, muita coisa boa ainda estava por vim, este show já adiantava a boa fase que ele se encontrava, que pôde ser ratificada com o próximo e extraordinário LP "MINAS"

Ano de lançamento: 1974
Ano de aquisição:1975

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Recife Jazz Festival 2009 - 08/11/09


Em seu terceiro e último dia, o Recife Jazz Festival, continuou com o intercâmbio cultural, principalmente com os franceses. Chegando atrasado, consegui assistir o último número da apresentação do clarinetista francês Jean Charles Richard, pela recepção calorosa da já numerosa plateia, acho que perdi um belo show.

A próxima atração foi um hermano Latino-americano, vindo do País Andino, o Chile, o baterista Nacho Mena e grupo, que com um português sem sotaques, segundo ele, aprendido quando morou em terras brasileiras, mostrou que não só incorporou o sotaque, mas também o ritmo e o balanço brasileiros que estão presentes em sua música, com um time de primeira linha, onde se destacava o saxofonista também chileno Paulo Guimarães, o grupo desenvolvia temas bem próximos a nós, com um balanço que lembrava o irrepreensível Milton Banana, conquistou logo a plateia com um som que fluia muito bem aos ouvidos, transmitindo toda euforia e alegria por estar ali se apresentando, um show bastante competente.

O duo de guitarras Bahiambuco, totalmente desconhecido, pelo menos por mim e acho que a grande maioria, foi a grata surpresa do dia, formado, como o próprio nome faz supor, por um bahiano e um pernambucano, que neste caso deixaram a rivalidade de lado. A primeira impressão foi de que ali estaria se apresentando uma destas horrendas duplas sertanejas, mas, como as aparências enganam, quando os dois soltaram os primeiros acordes em suas guitarras elétricas, percebeu-se que dali, sairia frutos muito bons, e a cada música a percepção ia se concretizando, com um domínio técnico excelente, uma sonoridade ímpar e um entrosamento que ia além das palhetas, eles iam desfilando composições próprias que foram conquistando a plateia, poderíamos dizer que eles beberam da fonte dos ótimos Jim Hall e Lenny Gordin, que poderiam fazer uma dupla memorável. Ao final com o público totalmente na mão, após vários improvisos, eles fecharam o show tocando um frevo, resultado, foi o único show que teve um rápido bis, grata surpresa.

Para fechar o festival, outro músico francês também clarinetista, pra lá de elétrico, Emile Parisien, num estilo FREE, com uma performance de palco que as vezes lembrava uma gazela se preparando para copular, Emile tocou um fusion jazz acelerado, mais parecendo um daqueles cabeludos guitarristas de heavy metal, tal sua performance. Tocar Free Jazz é para poucos, pois seus acordes atonais podem descambar para o irritante, mas Emile e grupo conseguiram segurar a onda, mostrando que a ousadia da produção em terminar um festival com uma música, por assim dizer, difícil, foi bem aceita pela ainda numerosa plateia, valeu a pena.

O Recife Jazz Festival 2009, com seu intercâmbio e diversidade cultural, e apoiado numa excelente escolha das atrações, mostrou mais uma vez que o formato está acertadíssimo, vida longa para o festival, os nossos ouvidos agradecem.